sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Os vários erros de "Mecanismos da Mediunidade"

Palavras de Deolindo Amorim no "Suplemento Literário" do n. 3 do Correio Fraterno do ABC (ano I, março de 1980):

"No campo espírita, sinceramente, a crítica faz muita falta. Há uma espécie de medo de ser irreverente, e, por isso, não se faz crítica, principalmente quando se trata de obras mediúnicas. Tenho, para mim, que é muito inconveniente, senão prejudicial à própria divulgação da Doutrina, o fato de, em determinados casos, se transformar a comunicação mediúnica em TABU. Aceita-se tudo, sem literatura meditada e sem crítica, apenas porque veio do Alto. É um erro muito grave. Penso, por isso mesmo, que o meio espírita precisa intensificar mais o hábito de leitura em profundidade. (...) E a crítica é das nossas necessidades (...)"

Clique no link abaixo e veja um trabalho que enviei à Comissão Editorial da FEB em 09/07/10 e que acabo de tornar público virtualmente devido à demora da referida comissão em tomar uma posição frente aos problemas levantados.

Problemas em "Mecanismos da Mediunidade"

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Qual é o senso dos kardecistas?

Recentemente, devido à celeuma causada pela errônea informação, propagada à revelia no meio espírita, de que a opção "Espiritismo" não se encontrava dentre aquelas propostas pelo IBGE para as respostas de seus entrevistados no que se refere ao quesito "Religião", alguns simpatizantes da doutrina coordenada por Allan Kardec, conquanto tenham desfeito o mal entendido relativo ao não-aparecimento da opção "Espiritismo" no rol das religiões brasileiras, pois que esta opção é computada normalmente pelo IBGE, quiseram ir além, tratando de questões eminentemente linguísticas, e nesta "ânsia esclarecedora" cometeram vários erros. De carona na boa e correta notícia seguiram subinformações em diversas nuanças...

O artigo que será comentado a seguir teve por título "Qual é o senso do Censo?". Constituído de 7 partes, foi publicado no blog Espiritismo Comentado em 04/08/10 (aqui). Somente agora conseguimos nos desvencilhar de certos afazeres mais urgentes para escrevermos um comentário a respeito, e como nossas colocações ultrapassaram o limite de caracteres permitidos em comentários no referido blog, seguem então abaixo (e numeradas)...

No item 1, o autor diz:

Bem, sou espírita, adepto do Espiritismo. Kardecista? Mesa Branca? De mesa? Linha branca? Não, nada disso. Qualquer espírita sabe que o termo Espiritismo foi criado por Kardec em 1857 para evitar confusão com o termo Espiritualista ou Espiritualista Moderno, que era vigente em sua época e defendia algumas ideias divergentes do sistema filosófico que ele acabava de publicar.

Há vários problemas aí:
1- Ele diz que não é adepto do "Espiritismo Kardecista", mas basta ler seus textos para constatar que ele é, sim, um espírita kardecista;
2- O termo "Espiritismo" não foi criado por Kardec em 1857; desde pelo menos 1853 ele já era usado (vide, por exemplo, aqui);
3- Kardec não pensou ter criado o termo "Espiritismo" para evitar confusão com o termo "Espiritualista" ou "Espiritualista Moderno", o que nem mesmo faz sentido dizer, mas para evitar confusão com "Espiritualismo", escola filosófica da qual o Espiritismo é um caso particular;
4- Isto, por si só, não implica em que seja erro utilizar-se da expressão "Espiritismo Kardecista".

No item 2 de seu artigo, aparecem (aqui, sempre em itálico):

(...) Como país oficialmente católico e potencialmente sincrético, não demorou a começar a confusão de identidade entre o Espiritismo, o Candomblé e a futura Umbanda (...)

5- Tal "problema" de identidade, pelo menos com relação à Umbanda, é plenamente legítimo, uma vez que ela é um caso particular de "Espiritismo" como definido por Kardec em "O Livro dos Espíritos", não decorrendo, portanto, do fato do Brasil ser um país potencialmente sincrético.

(...) A legislação republicana (também escrevendo de memória, mas quem quiser um livro excelente sobre o tema, há "O Cuidado dos Mortos", de Emerson Giumbelli) foi questionada e surgiu uma pérola: o legislador explicou que sua intenção era atingir o "baixo espiritismo" e não o "alto espiritismo" (...)

6- Pérola nenhuma. Apesar dos juízos subjetivos envolvidos, é lícita a divisão "alto espiritismo" / "baixo espiritismo".

Minha suspeita é que esse erro, em conjunto com a disposição sincrética do brasileiro, fez com que os membros dos cultos originados na África se identificassem com o termo espírita (...)

7- Como já dissemos, não houve erro algum. Além disso, não há menor resquício de precisão em se dizer que a divisão "alto espiritismo" / "baixo espiritismo" seja uma causa do fato de membros de cultos originados na África identificarem-se com o termo "espírita".

Na tentativa de distinguir as práticas religiosas, começaram a surgir os termos "linha branca", "centro de mesa" e outras expressões próprias de uma sábia população que sabe haver uma grande diferença entre o Espiritismo, o Candomblé e a Umbanda, e que tenta resolver o problema criado pelo legislador mal informado.

8- "(...) uma sábia população que sabe haver uma grande diferença entre o Kardecismo, o Candomblé e a Umbanda" ficaria melhor, e não houve qualquer problema de informação na posição do legislador.

Do item 3 do texto de Jáder Sampaio:

Com a Umbanda, no século XX, o problema da identidade se cronificou. Muitos umbandistas, a despeito da clara e correta posição da Federação Umbandista, se declaram espíritas.

9- E são mesmo espíritas no sentido original da palavra! Veja em Kardec ("O Livro dos Espíritos"): "Diremos, pois, que a doutrina espírita ou o Espiritismo tem por princípio as relações do mundo material com os Espíritos ou seres do mundo invisível. Os adeptos do Espiritismo serão os espíritas, ou, se quiserem, os espiritistas".

Do item 5 do texto:

(...) grupos que não consideramos espíritas, pelas divergências com o pensamento kardequiano.

10- Como pode ser visto da definição de Kardec que fornecemos mais acima, os espíritas seriam um grupo muito amplo, abarcando diversos segmentos; aqueles simpatizantes pela "Codificação Kardecista" são um caso particular, e devem ser chamados de espíritas kardecistas ou, simplesmente, kardecistas.

Do item 6 do artigo:

A FEB, na pessoa de seu presidente, recomendou que respondêssemos ao Censo com o incômodo termo Kardecista ou Kardecismo. Quem estuda o Espiritismo concorda que é uma palavra muito infeliz, porque o Espiritismo não se reduz à importante contribuição de Allan Kardec, e ele é o principal advogado do termo Espírita e de seu papel como um primeiro pensador da Doutrina Espírita.

Vários problemas estão enfeixados neste parágrafo:
11- Estudamos o Espiritismo e não achamos "Kardecismo" uma palavra infeliz;
12- Ainda que "Kardecismo" fosse uma palavra infeliz, a causa disso não poderia ser atribuída ao fato de que o "Espiritismo não se reduz à importante contribuição de Allan Kardec", pois pode-se muito bem entender por "Kardecismo" o ramo do Espiritismo que, apesar de não se restringir à contribuição de Kardec, também não foge de seus ditames;
13- Também não poderia ser atribuída a causa da infelicidade da expressão "Kardecismo" ao fato de que Kardec fora o principal advogado do termo "espírita". Ele utilizou amplamente esta palavra, sim, mas... e daí? Kardec advogou este termo para os adeptos da doutrina "que tem por princípio as relações do mundo material com os Espíritos ou seres do mundo invisível", não para a doutrina que tem por base as escolhas que ele fez a partir daquilo que os Espíritos comunicavam em sua época...

Eu até arrepio em me identificar como Kardecista (...)

14- Pois não devia arrepiar, uma vez que ele é kardecista.

Do item 7 do texto:

O IBGE omitiu o termo espírita, para evitar a seguinte dúvida no Censo: quem responder Espiritismo é adepto do Espiritismo mesmo ou é um adepto do Candomblé ou da Umbanda, identificando-se incorretamente? Eles têm razão! (...)

15- O IBGE não omitiu o termo "espírita", e quem responder que é adepto do "Espiritismo" estará dizendo simplesmente que aceita a existência de Espíritos e a manifestação destes no plano físico sob determinadas circunstâncias. Só isso. Assim, conquanto o indivíduo não possa ser considerado um adepto do Candomblé, uma vez que a crença em Espíritos (no sentido de Kardec) não faz parte dos princípios desta religião, pode ser que ele seja, sim, um umbandista.

Jáder Sampaio termina seu artigo dizendo:

(...) Mas se eu ficar no modelo completo, vou responder: Espiritismo!

E nós terminamos assim:

16- Se os adeptos da Codificação Kardecista quiserem ser precisos, devem responder que são KARDECISTAS. A Lógica agradece.