quarta-feira, 9 de junho de 2010

Picaretagem, subinformação e censura em um blog espírita

Pessoal, hoje irei tratar de um tópico deveras desagradável: picaretagem, subinformação e censura em um blog espírita. Eu nunca abordaria publicamente um assunto desses não fosse forçado pelas circunstâncias. Porém, não havendo mesmo outro recurso...

O caso é o seguinte: tendo encontrado em http://ensinoespirita.blogspot.com/2010/02/analisando-andre-luiz.html, parte do blog REPÚBLICA DOS ESPÍRITOS, uma transcrição de uma entrevista de 2004 realizada pelo jornal ABERTURA, de Santos-SP, com Érika de Carvalho Bastone, autora do malogrado trabalho “A Física no Espiritismo”, apresentado no VIII Simpósio Brasileiro de Pensamento Espírita (SBPE), ocorrido em 2003, teci em 01/06/10 o seguinte comentário:

Vale ressaltar que o trabalho apresentado no VIII SBPE (2003) pela Srta. Érika de Carvalho apresenta inúmeros problemas. Muito do que ela atribuiu como erros de André Luiz está baseado na falta de conhecimentos dela nos pontos que critica. Tenho um artigo escrito sobre isso. Basta contatar-me que disponibilizo.

Curiosamente, meu comentário foi simplesmente censurado, pois não apareceu no referido blog até este exato momento... Não seria lícito considerar que o responsável pelo blog, Francisco Amado, não tenha tomado conhecimento de meu comentário, pois há postagens dele lá após 01/06. Sendo assim, qual seria a razão da referida censura? Simplesmente impossibilitar que o contraditório esteja ao alcance das pessoas que lerem a matéria...

No mesmo dia 01/06/10, e no mesmo blog, tecemos o seguinte comentário sobre o artigo “Analisando Evolução em Dois Mundos” (http://ensinoespirita.blogspot.com/2010/03/analisando-evolucao-em-dois-mundos.html):

Ei, este texto é uma cópia editada de um localizado em http://obraspsicografadas.haaan.com/2007/erros-de-fsica-e-biologia-encontrados-no-livro-evoluo-em-dois-mundos/, com a única diferença de que vc sumiu com a referência ao site "Criticando Kardec"... Forneça o link do artigo original, pois você não é o autor do texto!

A resposta do responsável pelo blog, postada no mesmo dia, foi a seguinte:

Não caro amigo não sumi com o link. Apenas esqueci de postar.

Mas pode facilmente ser constatado que ele sumiu, sim, com a referência! Que ele esquecera de fornecer o link do artigo original até dá - com muito esforço - para acreditarmos (este problema inclusive já foi corrigido). Agora, sobre a referência que mencionei, vejamos... No artigo original consta:

Referências
. Xavier, Chico; Vieira, Waldo. “Evolução em Dois Mundos” (1960). FEB.
. Bastone, Érika de Carvalho. “A Física no Espiritismo” (2003), apresentado no VIII Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita.
. Siqueira, Julio César. http://paginas.terra.com.br/educacao/criticandokardec/erros1.htm (acessado dia 29/10/2007)
. http://site.andreluiz.vilabol.uol.com.br/CA_luciano_dos_anjos.html (acessado dia 29/10/2007)


Já na versão espertalhona de Amado...

Referências
. Xavier, Chico; Vieira, Waldo. “Evolução em Dois Mundos” (1960). FEB.
. Bastone, Érika de Carvalho. “A Física no Espiritismo” (2003), apresentado no VIII Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita. Este artigo foi apresentado no VIII Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita (evento bienal), ocorrido em Santos, de 17 a 19.10.2003. O organizador desses simpósios é o ICKS - Instituto Cultural Kardecista de Santos.


O leitor notou a diferença? Pois é... O link para a entrevista com Luciano dos Anjos foi também fornecido na versão de Amado (no corpo do texto, fora das referências), mas o link para o “Criticando Kardec” (atualmente em outro endereço)... simplesmente sumiu! E por quê? Simples. Porque Francisco Amado não hesita em desaparecer com referências e em censurar comentários para que não sejam vislumbradas formas de pensar diferentes das suas. Atitude lamentável sob todos os aspectos. Do mesmo modo que meu comentário daria oportunidade às pessoas saberem que muitas das críticas a André Luiz são infundadas, o portal “Criticando Kardec” mostra que o pedagogo francês errou em alguns pontos. Mas, como Amado é um fanático bajulador de Kardec e também um detrator de André Luiz, pronto! Desapareceu com a referência mencionada e censurou meu comentário...

Importa também, aqui, tecer duas considerações:

1- A reprodução da matéria do jornal ABERTURA encontra-se em um tópico do blog intitulado, pretensiosamente, “Sob o Crivo da Razão”, que apresenta também, dentre outros, dois artigos de Carlos de Brito Imbassahy (“Um Deus perfeito é capaz de criar uma criatura imperfeita?” e “Querem acabar com Kardec!”) e um de Erasto de Carvalho Prestes (“Chico Xavier, um Mito Nacional – III”). O primeiro autor: um pseudocientista de primeira linha; o segundo: um basbaque que deve estar colhendo agora no Mundo Espiritual os frutos que plantou na Terra... Em momento oportuno, trataremos destes dois personagens.

2- Já a matéria “Analisando Evolução em Dois Mundos”, ela aparece em um tópico do blog chamado “Cientistas Espíritas”. Ironicamente, vemos também aí textos de Carlos de Brito Imbassahy (“Deturpação do Espiritismo” e “Deus Existe?”)... Porém, o mais curioso não é isto, mas o seguinte: encontramos no tópico mencionado artigos aparentemente (depois de não ter constado a real autoria daquele texto que mencionamos, nunca se sabe...) do próprio Francisco Amado: “A Parapsicologia e o Espiritismo”, “Daniel D. Home Um Católico Ortodoxo que Levitava” e “Perito Criminal Confirma ser Autentica Foto de Espírito” (estrutura e grafias mantidas). Como ele não cita qualquer cientista espírita nestes textos, deveríamos deduzir que o próprio Francisco Amado seria o cientista espírita em questão! Piada?...

Bem, pessoal, fico por aqui.

sábado, 5 de junho de 2010

Sobre a INTRODUÇÃO À[sic] “O LIVRO DOS ESPÍRITOS” - Parte 3 (final)

Continuando... (Para ler a parte 2 desta análise, veja o post anterior -- aqui.)

20) Kardec examina o problema científico do Espiritismo no capítulo VII da “Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita”. (...) Kardec insiste no caráter científico da doutrina. Caráter próprio, como ele explica nos capítulos citados (...) [Pág. 18]

Primeiramente, Herculano Pires cita apenas um capítulo da “Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita”, de modo que se equivocou ao referir-se depois a “capítulos citados”. Depois, no capítulo mencionado da “Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita” (VII), não é verdade que Kardec insiste no caráter científico do Espiritismo. Em nenhum momento ele diz isto. Inclusive, Kardec faz questão de ressaltar, ali, que “o Espiritismo é o resultado de uma convicção pessoal que os sábios podem ter como indivíduos”, que “deferir a questão à Ciência seria o mesmo que entregar a uma assembléia de físicos ou astrônomos a solução do problema da existência da alma” e que “o Espiritismo não é da alçada da Ciência”! Ou seja, para Kardec, quando da redação de tais trechos, Ciência seria uma coisa; Espiritismo, outra.

21) Por que essa insistência no caráter científico? Porque “O Livro dos Espíritos” vem abrir uma nova era no estudo dos problemas espirituais. Até a sua publicação, esses problemas eram tratados de maneira empírica ou apenas imaginosa. (...) [Pág. 18]

Bem, aqui Herculano Pires comete dois erros. Primeiro: como explicado no item anterior, não houve referência por parte de Kardec em “O Livro dos Espíritos” a um alegado caráter científico do Espiritismo. Segundo: o lado empírico da abordagem dos ditos "problemas espirituais" continuou mesmo após a publicação de “O Livro dos Espíritos”. É justamente aí a "zona de confluência" entre Espiritismo e Ciência.

22) (...) Tudo aquilo que, antes dele [de “O Livro dos Espíritos”], constitui o espiritualismo, pode ser chamado “espiritualismo utópico”, e tudo o que vem com ele e depois dele, seguindo sua linha doutrinária, “espiritualismo científico”, como fazem os marxistas com o socialismo de antes e depois de Marx. [Págs. 18-19]

Mais um exagero de Herculano Pires. As pesquisas sobre os fenômenos espiritualistas só ganhariam mesmo ares científicos após a formação do comitê da London Dialectical Society para a pesquisa dos fenômenos mencionados, o que ocorreu em janeiro de 1869. Isto apesar de tais pesquisas terem-se iniciado antes mesmo de "O Livro dos Espíritos", com os trabalhos do químico estadounidense Robert Hare, que foram enfeixados em sua obra "Experimental investigation of the spirit manifestations, demonstrating the existence of the spirits and their communion with mortals", publicada em 1855.

23) (...) Com ele [“O Livro dos Espíritos”], o espírito e seus problemas saíram do terreno da abstração, para se tornarem acessíveis à investigação racional, e até mesmo à pesquisa experimental. (...) [Pág. 19]

Conforme já mencionado no item anterior, a pesquisa experimental dos fenômenos espíritas iniciou-se antes mesmo da elaboração de “O Livro dos Espíritos”.

24) (...) O homem deve conter-se nos limites de si mesmo, cuidar de suas imperfeições, melhorar-se. Basta-lhe saber que Deus existe, e é justo e bom. Disso ele não pode duvidar, porque “pela obra se reconhece o obreiro”, a própria natureza atesta a existência de Deus, sua própria consciência lhe diz que ele existe, e a lei geral da evolução comprova a sua justiça e a sua bondade. (...) A negação de Deus é, para o Espiritismo, como a negação do Sol. O ateu, o descrente, não é um condenado, um pecador irremissível, mas um cego, cujos olhos podem ser abertos, e realmente o serão. (...) Nada se pode entender sem Deus. Ele é o centro e a razão de ser de tudo quanto existe. Tirar Deus do Universo é como tirar o Sol do nosso sistema. Simples absurdo.
[Pág. 20]

É interessantíssimo como Herculano Pires se contradiz e, ao mesmo tempo, escancara seu lado de “teólogo ditador”. Depois de iniciar com um profundo ensinamento (“o homem deve conter-se nos limites de si mesmo, cuidar de suas imperfeições, melhorar-se”), ele mesmo não contém-se nos seus limites! Pode um negócio desses?... O que segue é um surrado rosário que bem lembra a escolástica medieval, que tentou provar com argumentos alegadamente lógicos a existência de Deus... Não bastasse toda aquela “lenga-lenga”: a) Herculano Pires comete um erro ao dizer que para o Espiritismo a negação de Deus é como a negação do Sol, pois essa questão é absolutamente irrelevante; b) Sem apresentar qualquer argumento plausível, qualifica os ateus de “cegos”, quando a “cegueira”, como estamos vindo mostrando, é toda dele; c) Por fim, em um arremate de crente fervoroso, cujo uso da razão não é dos melhores, ele diz que “nada se pode entender sem Deus”. Bem, seria preciso comentar? Acho que não...

25) Este, em linhas gerais, o livro que a 18 de abril deste ano [1957] completou cem anos (...)
[Pág. 22]

Ora, mas durante toda a sua introdução J. Herculano Pires tratou da 2ª. edição original de “O Livro dos Espíritos”, que é datada de... 1860! Foram feitas referências explícitas à divisão geral e aos capítulos desta edição, que possui mais partes e capítulos que a edição de 1857, além de outra estrutura.

Conclusão dos comentários ao texto de abertura da edição comemorativa da LAKE aos 100 anos de "O Livro dos Espíritos" (1957), escrito por J. Herculano Pires

Bem, pessoal, é isso. Em pouco mais de 12 páginas, Herculano Pires incorreu em todos os problemas mencionados e discutidos neste e nos dois posts anteriores sobre o assunto. Para quem é considerado uma espécie de mito no movimento espírita brasileiro, fica ilustrado em que pé anda a reflexão dos espíritas brasileiros...