quarta-feira, 31 de março de 2010

Sobre a INTRODUÇÃO À[sic] “O LIVRO DOS ESPÍRITOS” - Parte 1

O texto cujo título foi mencionado acima em caixa alta (o acento agudo está no original), e cuja primeira parte será analisada nas linhas que se seguem, foi escrito em 1957 por J. Herculano Pires para uma edição especial de "O Livro dos Espíritos" pela LAKE (Livraria Allan Kardec Editora), comemorativa do centenário da 1ª. edição original deste livro. Não bastasse ser insosso, “chato pra chuchu”, o texto apresenta vários erros históricos, e o fanatismo abunda em suas linhas. Abaixo, e nos próximos posts sobre o assunto, iremos numerar e comentar as passagens que consideramos problemáticas.

1) Com este livro, a 18 de abril de abril de 1857, raiou para o mundo a era espírita.
[Pág. 11]

O texto de Herculano Pires começa assim. E como começa mal!... Ainda que possa ser aceito, com muita previdência, que “Le Livre des Esprits” inaugurara a "era espírita" (existe isso?), Herculano Pires, se realmente fosse claro e verdadeiro, deveria ter escrito o trecho acima mais ou menos assim: "Com a 1ª. edição original deste livro, lançada a 18 de abril de 1857, raiou para o mundo a era espírita". É notável que tanto a editora (LAKE) quanto o tradutor (Herculano Pires) tenham omitido este fato tão importante: que a edição especial de 1957 (a primeira de “O Livro dos Espíritos” pela LAKE) é da 2ª. edição francesa da obra, publicada em 1860, bastante modificada e aumentada, quase um outro livro...

2) Nele se cumpria a promessa evangélica do Consolador, do Paracleto ou Espírito da Verdade. [Pág. 11]

Isto foi dito logo em continuidade ao trecho já transcrito. Bem, em minha opinião, o tradutor está a nos pedir demais... Além de termos que acreditar que a tal promessa evangélica realmente ocorreu, precisamos ainda aceitar que “O Livro dos Espíritos” é o seu cumprimento!...

3) Dizer isso equivale a afirmar que “O Livro dos Espíritos” é o código da nova fase da evolução humana. E é exatamente essa a sua posição na história do pensamento. [Pág. 11]

Isto foi o que veio logo em seguida. Se o tradutor ainda estivesse entre nós, mereceria ouvir: “Menos, Sr. Herculano, menos! Faça-nos favor!”...

4) Sobre este livro se ergue todo um edifício: o da Doutrina Espírita. Ele é a pedra fundamental do Espiritismo, o seu marco inicial. O Espiritismo surgiu com ele (...) Antes deste livro não havia Espiritismo, e nem mesmo esta palavra existia. [Pág. 11]

É lamentável que aquilo que o nosso tradutor tenha feito questão de enfatizar (falou pelo menos três vezes a mesma coisa!) seja um erro. O Espiritismo, como doutrina fundada sobre a crença na existência de Espíritos e em suas manifestações, vem desde tempos imemoriais. Modernamente, já temos notícias de trabalhos de cunho doutrinário baseados na comunicação dos Espíritos desde 1853 (antes da publicação de “Le Livre des Esprits”, portanto), vindos da lavra do juiz J. W. Edmonds, dos E.U.A. Mesmo sob o caráter de "ciência prática" já havia trabalhos a respeito desde 1855, como a obra "Experimental investigation of the spirit manifestations, demonstrating the existence of the spirits and their communion with mortals", do químico Robert Hare, também dos E.U.A. Até a palavra “Espiritismo”, em sua versão inglesa, já era usada anos antes da publicação de "Le Livre des Esprits", como pode ser visto, por exemplo, aquiaqui aqui.

5) (...) depois que Kardec o lançou à publicidade, “contendo os princípios da Doutrina Espírita”, uma nova luz brilhou nos horizontes mentais do mundo. [Pág. 11]

Como fizemos no item 3, repetiríamos novamente: “Menos, Sr. Herculano, menos!”...

6) (...) surgiu a Bíblia. Não foi Moisés quem a escreveu, mas foi ele o motivo central dessa primeira codificação do novo ciclo de revelações: o cristão. (...) [Pág. 11]

Confessamos que chegamos a pensar que Herculano Pires já apresentava algum problema de senilidade quando escrevera esta “Introdução” que estamos a analisar. Mas, considerando que ele estava com os seus quarenta e poucos anos na ocasião, tal suspeita talvez não se justifique muito... Analisem bem, pessoal: dizer que Moisés foi o motivo central da Bíblia e que esta (em sua totalidade) constitui-se na codificação de uma revelação cristã é demais, não é, não?...

7) (...) Mais tarde, quando a influência bíblica já havia modelado um povo (...) apareceu Jesus; e das suas palavras, recolhidas pelos discípulos, surgiu o Evangelho. [Pág. 11]

Aqui, Herculano erra ao considerar Jesus (e consequentemente os Evangelhos) como algo à parte dos acontecimentos bíblicos. Depois, vale frisarmos uma advertência que também se aplica à obra de Kardec: o uso de “Evangelho” em vez de “Evangelhos”. Das palavras de Jesus, Evangelhos surgiram.

8) A Bíblia é a codificação da primeira revelação cristã (...) O Evangelho é a codificação da segunda revelação cristã (...) Mas assim como, na Bíblia, já se anunciava o Evangelho, também neste aparecia a predição de um novo código (...) [Pág. 11]

Vide comentários anteriores (itens 6 e 7). Além disso, se houve uma revelação cristã, aquela contida nos Evangelhos deve ser encarada como a primeira.

9) (...) processo das revelações cristãs: das formas incongruentes da Bíblia, passamos ao equilíbrio clássico do Evangelho, e deste à libertação espiritual de “O Livro dos Espíritos”. (...) A Bíblia é a síntese da antigüidade, como o Evangelho é a síntese do mundo greco-romano-judaico (...) [Pág. 12]

Vide comentários anteriores (itens 6, 7 e 8).

10) (...) os princípios evangélicos passam diretamente, sem necessidade de readaptações ou modificações, em sua pureza primitiva, para as páginas deste livro (...) [Pág. 12]

O tradutor refere-se a “O Livro dos Espíritos”. Com base em que ele afirmou que o dito livro transmite os princípios evangélicos em sua pureza original? Seria mais um “coelho” que Herculano Pires tirara de sua “cartola”?...

(Este texto foi ligeiramente modificado em 04/04/10)

(Para ler a continuação da análise, clique aqui.)

terça-feira, 30 de março de 2010

Apresentação

Nosso objetivo a partir dessa postagem inicial é oferecer aos leitores virtuais uma análise crítica da versão de J. Herculano Pires de “O Livro dos Espíritos”. Aos problemas da obra em si, originariamente escrita em francês (“Le Livre des Esprits”), Herculano Pires ainda acrescentou outros. Além de ter adulterado a obra, traduziu trechos equivocadamente e fez comentários no mínimo questionáveis, seja na sua "Introdução", seja nas notas de rodapé.

Nossa insatisfação com a referida versão de "O Livro dos Espíritos" surgiu tão logo iniciamos sua leitura, em meados de 2003, data que coincide com o início de nossos estudos espiritualistas. [No 2o. semestre de 2004, realizando um estudo mais cuidadoso da obra, notamos que grande parte dos problemas ali apresentados eram na realidade devidos a Herculano Pires, o tradutor - nota de 22.06.10] Em junho de 2006, para que nossos pontos de vista não ficassem restritos apenas a nós mesmos e a algumas poucas pessoas com as quais comentamos a respeito, iniciamos um blog para dar vazão à nossa crítica. Entretanto, por injunções que a vida nos impôs, não pudemos dar continuidade à nossa proposta, e sobre este assunto tudo não passou do primeiro post...

Mês passado, entretanto, lembrando do trabalho e vislumbrando possibilidades de continuá-lo, relemos o mencionado post e chegamos até a fazer pequenas alterações nele (vide o texto revisado abaixo), com vistas a continuar a escrever sobre o assunto. Porém, retomando o estudo do exemplar de “O Livro dos Espíritos” ali citado (61ª. ed. da LAKE, de Dez/2000), decidimos mudar de planos quanto ao local de apresentação de nossa análise crítica: faríamos isto em um blog dedicado exclusivamente ao Espiritismo no Brasil. Nada mais natural. É esta a nossa proposta aqui. E achamos que agora vai...

(Nota: a postagem seguinte relacionada a este assunto encontra-se aqui.)
---

SÁBADO, JUNHO 17, 2006


A perpetuação de um erro: comentários sobre a tradução herculana de "O Livro dos Espíritos"

Antes fosse a perpetuação de apenas um erro... Na realidade, porém, é considerável a quantidade de erros encontrados na tradução de J. Herculano Pires (1914-1979) de "Le Livre des Esprits". Só para constar, é bom que se saiba que as mais conhecidas traduções brasileiras deste livro (por Guillon Ribeiro, edições pela FEB; por J. Herculano Pires, edições pela LAKE, pela FEESP e pela Edicel; por Salvador Gentile, edições pelo IDE e pela Ed. Boa Nova; além da tradução de Julio Abreu Filho, lançada pela Ed. Pensamento) são da 2a edição francesa, de 1860. A 1a edição, de 1857, foi desconsiderada por Kardec após considerações feitas pelos Espíritos. Bastante aumentada (a 1a edição continha pouco mais de 500 blocos de pergunta-resposta), a 2a edição foi considerada a versão definitiva. Mas voltemos ao tema deste artigo.

Não sei por qual motivo J. Herculano Pires resolveu traduzir "Le Livre des Esprits". Na época em que dedicou a este mister, já havia uma tradução esmerada disponível no mercado, devida a Guillon Ribeiro (1875-1943) e editada pela FEB. Mas o fato é que Herculano se propôs a este trabalho... E falhou em alguns pontos, veremos por quê. Para análise, utilizamos a 61a edição da LAKE, de Dezembro de 2000.

Estes tempos modernos pedem - quase exigem - que sejamos sucintos. Procurarei sê-lo o mais possível. De antemão, deixo claro que não tenho nada contra o caráter de J. Herculano Pires. Não o conheci (e nem poderia, pois nasci depois de seu desencarne) e não emitirei aqui qualquer juízo sobre sua vasta obra. Apenas analisarei com detalhe seus erros na tradução de "Le Livre des Esprits". Para maior clareza, procurei dividi-los em três classes, a saber:
1. Erros relacionados a certo desconhecimento de nossa língua pátria, o português;
2. Erros relacionados a um entendimento incompleto do idioma francês;
3. Problemas na estrutura lógica das ideias esboçadas na "Introdução" e nas notas de rodapé.

O mito herculano persiste. Muitos consideram a tradução de J. Herculano Pires de "Le Livre des Esprits" a melhor existente em português. É realmente espantosa a falta de acuidade literária dos que assim o fazem, pois a "densidade de erros" na referida tradução é bastante alta.

Desde já, peço que os leitores dos textos que virão se atenham às ideias analisadas. Argumentos baseados em uma possível "autoridade" de J. Herculano Pires ou coisa que o valha não serão sequer analisados.

Iniciemos...

(Este texto foi ligeiramente alterado em 16/02/10 na intenção de que iniciássemos, finalmente, a postagem de nossas ponderações a respeito da referida tradução herculana. Porém, decidimos disponibilizá-las em outro blog que criamos, e o primeiro post a respeito do assunto está aqui.)

quinta-feira, 11 de março de 2010

A Editora do "Conhecimento"...

Pessoal, acabei indo parar no site da Editora Conhecimento e, em uma das seções estampadas na própria página principal, "dou de cara" com um erro sobre o qual eu já havia chamado a atenção da editora em um e-mail de... julho de 2005! Trata-se da autoria espiritual do livro "A Sobrevivência do Espírito", devida principalmente a Atanagildo, que, entretanto, não recebe qualquer crédito na capa, que exibe apenas Ramatis como autor espiritual. Apesar do próprio médium, Hercílio Maes, ter afirmado no início da obra que Ramatis fora uma espécie de coordenador do livro, não nos parece lícito simplesmente deixar de mencionar na capa o autor espiritual da parte principal da obra. Problema idêntico acontece com o livro "A Vida Além da Sepultura", também de Atanagildo (autor principal) e Ramatis (coordenador e autor secundário). Na primeira edição de tais obras, no fim da década de 50 do século passsado, pela extinta "Editora Divino Mestre", elas já apresentaram problemas quanto a este ponto, a autoria espiritual sendo indicada na forma "Ramatis / Com a participação do espírito de Atanagildo". Com as edições posteriores pela Livraria Freitas Bastos, a menção a Atanagildo foi até mesmo retirada da capa, e a Ed. do Conhecimento, que atualmente publica as obras mencionadas, insiste em manter este erro. Vale também ressaltar que a Ed. do Conhecimento chega ao cúmulo de listar dentre os livros de Ramatis uma obra inteiramente de Atanagildo, "Semeando e Colhendo", conforme pode ser visto da relação dos livros de Ramatis publicados pela referida editora, que aparece em todas as obras deste Espírito publicadas por ela e também no site da mesma.

Na referida mensagem de julho de 2005 (que não foi respondida!), além dos pontos supracitados, eu também listava vários erros de ortografia e sintaxe da parte introdutória da 13a. ed. do livro "Fisiologia da Alma" (Ed. do Conhecimento, 2002), que fora revisada por dois revisores(!). É lamentável. Na edição dos livros de Ramatis psicografados por Hercílio Maes, a Ed. do Conhecimento propagou praticamente todos os erros que já apareciam nas edições mais antigas, pela Livraria Freitas Bastos... Outro ponto que também mencionei na mensagem foi o fato de que, nos livros do Conde Rochester (autor espiritual) publicados pela editora, o nome da médium ora aparecia como Wera Krijanowskaia, ora como Wera Krijanovskaia, ora como Vera Kryzhanovskaia...

Vá lá que a Ed. do "Conhecimento" continue publicando obras eivadas de erros já cinquentenários de conteúdo, como as ramatisianas "A Vida no Planeta Marte e os Discos Voadores" e "Mensagens do Astral", originariamente publicadas em 1955 e 1956, respectivamente. O editor poderia argumentar, por exemplo, que está servindo a uma causa maior, que é o todo da produção ramatisiana através de H. Maes, etc. Mas, daí à apresentação de obras cheias de erros de português e com capas falseadas, não dá. Esperamos então que a editora ao menos apresente informações verídicas nas capas de seus livros e um português mais palatável no conteúdo deles.

(Este texto sofreu modificações em 26/03/10 e em 10/09/2011)