sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Os vários erros de "Mecanismos da Mediunidade"

Palavras de Deolindo Amorim no "Suplemento Literário" do n. 3 do Correio Fraterno do ABC (ano I, março de 1980):

"No campo espírita, sinceramente, a crítica faz muita falta. Há uma espécie de medo de ser irreverente, e, por isso, não se faz crítica, principalmente quando se trata de obras mediúnicas. Tenho, para mim, que é muito inconveniente, senão prejudicial à própria divulgação da Doutrina, o fato de, em determinados casos, se transformar a comunicação mediúnica em TABU. Aceita-se tudo, sem literatura meditada e sem crítica, apenas porque veio do Alto. É um erro muito grave. Penso, por isso mesmo, que o meio espírita precisa intensificar mais o hábito de leitura em profundidade. (...) E a crítica é das nossas necessidades (...)"

Clique no link abaixo e veja um trabalho que enviei à Comissão Editorial da FEB em 09/07/10 e que acabo de tornar público virtualmente devido à demora da referida comissão em tomar uma posição frente aos problemas levantados.

Problemas em "Mecanismos da Mediunidade"

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Qual é o senso dos kardecistas?

Recentemente, devido à celeuma causada pela errônea informação, propagada à revelia no meio espírita, de que a opção "Espiritismo" não se encontrava dentre aquelas propostas pelo IBGE para as respostas de seus entrevistados no que se refere ao quesito "Religião", alguns simpatizantes da doutrina coordenada por Allan Kardec, conquanto tenham desfeito o mal entendido relativo ao não-aparecimento da opção "Espiritismo" no rol das religiões brasileiras, pois que esta opção é computada normalmente pelo IBGE, quiseram ir além, tratando de questões eminentemente linguísticas, e nesta "ânsia esclarecedora" cometeram vários erros. De carona na boa e correta notícia seguiram subinformações em diversas nuanças...

O artigo que será comentado a seguir teve por título "Qual é o senso do Censo?". Constituído de 7 partes, foi publicado no blog Espiritismo Comentado em 04/08/10 (aqui). Somente agora conseguimos nos desvencilhar de certos afazeres mais urgentes para escrevermos um comentário a respeito, e como nossas colocações ultrapassaram o limite de caracteres permitidos em comentários no referido blog, seguem então abaixo (e numeradas)...

No item 1, o autor diz:

Bem, sou espírita, adepto do Espiritismo. Kardecista? Mesa Branca? De mesa? Linha branca? Não, nada disso. Qualquer espírita sabe que o termo Espiritismo foi criado por Kardec em 1857 para evitar confusão com o termo Espiritualista ou Espiritualista Moderno, que era vigente em sua época e defendia algumas ideias divergentes do sistema filosófico que ele acabava de publicar.

Há vários problemas aí:
1- Ele diz que não é adepto do "Espiritismo Kardecista", mas basta ler seus textos para constatar que ele é, sim, um espírita kardecista;
2- O termo "Espiritismo" não foi criado por Kardec em 1857; desde pelo menos 1853 ele já era usado (vide, por exemplo, aqui);
3- Kardec não pensou ter criado o termo "Espiritismo" para evitar confusão com o termo "Espiritualista" ou "Espiritualista Moderno", o que nem mesmo faz sentido dizer, mas para evitar confusão com "Espiritualismo", escola filosófica da qual o Espiritismo é um caso particular;
4- Isto, por si só, não implica em que seja erro utilizar-se da expressão "Espiritismo Kardecista".

No item 2 de seu artigo, aparecem (aqui, sempre em itálico):

(...) Como país oficialmente católico e potencialmente sincrético, não demorou a começar a confusão de identidade entre o Espiritismo, o Candomblé e a futura Umbanda (...)

5- Tal "problema" de identidade, pelo menos com relação à Umbanda, é plenamente legítimo, uma vez que ela é um caso particular de "Espiritismo" como definido por Kardec em "O Livro dos Espíritos", não decorrendo, portanto, do fato do Brasil ser um país potencialmente sincrético.

(...) A legislação republicana (também escrevendo de memória, mas quem quiser um livro excelente sobre o tema, há "O Cuidado dos Mortos", de Emerson Giumbelli) foi questionada e surgiu uma pérola: o legislador explicou que sua intenção era atingir o "baixo espiritismo" e não o "alto espiritismo" (...)

6- Pérola nenhuma. Apesar dos juízos subjetivos envolvidos, é lícita a divisão "alto espiritismo" / "baixo espiritismo".

Minha suspeita é que esse erro, em conjunto com a disposição sincrética do brasileiro, fez com que os membros dos cultos originados na África se identificassem com o termo espírita (...)

7- Como já dissemos, não houve erro algum. Além disso, não há menor resquício de precisão em se dizer que a divisão "alto espiritismo" / "baixo espiritismo" seja uma causa do fato de membros de cultos originados na África identificarem-se com o termo "espírita".

Na tentativa de distinguir as práticas religiosas, começaram a surgir os termos "linha branca", "centro de mesa" e outras expressões próprias de uma sábia população que sabe haver uma grande diferença entre o Espiritismo, o Candomblé e a Umbanda, e que tenta resolver o problema criado pelo legislador mal informado.

8- "(...) uma sábia população que sabe haver uma grande diferença entre o Kardecismo, o Candomblé e a Umbanda" ficaria melhor, e não houve qualquer problema de informação na posição do legislador.

Do item 3 do texto de Jáder Sampaio:

Com a Umbanda, no século XX, o problema da identidade se cronificou. Muitos umbandistas, a despeito da clara e correta posição da Federação Umbandista, se declaram espíritas.

9- E são mesmo espíritas no sentido original da palavra! Veja em Kardec ("O Livro dos Espíritos"): "Diremos, pois, que a doutrina espírita ou o Espiritismo tem por princípio as relações do mundo material com os Espíritos ou seres do mundo invisível. Os adeptos do Espiritismo serão os espíritas, ou, se quiserem, os espiritistas".

Do item 5 do texto:

(...) grupos que não consideramos espíritas, pelas divergências com o pensamento kardequiano.

10- Como pode ser visto da definição de Kardec que fornecemos mais acima, os espíritas seriam um grupo muito amplo, abarcando diversos segmentos; aqueles simpatizantes pela "Codificação Kardecista" são um caso particular, e devem ser chamados de espíritas kardecistas ou, simplesmente, kardecistas.

Do item 6 do artigo:

A FEB, na pessoa de seu presidente, recomendou que respondêssemos ao Censo com o incômodo termo Kardecista ou Kardecismo. Quem estuda o Espiritismo concorda que é uma palavra muito infeliz, porque o Espiritismo não se reduz à importante contribuição de Allan Kardec, e ele é o principal advogado do termo Espírita e de seu papel como um primeiro pensador da Doutrina Espírita.

Vários problemas estão enfeixados neste parágrafo:
11- Estudamos o Espiritismo e não achamos "Kardecismo" uma palavra infeliz;
12- Ainda que "Kardecismo" fosse uma palavra infeliz, a causa disso não poderia ser atribuída ao fato de que o "Espiritismo não se reduz à importante contribuição de Allan Kardec", pois pode-se muito bem entender por "Kardecismo" o ramo do Espiritismo que, apesar de não se restringir à contribuição de Kardec, também não foge de seus ditames;
13- Também não poderia ser atribuída a causa da infelicidade da expressão "Kardecismo" ao fato de que Kardec fora o principal advogado do termo "espírita". Ele utilizou amplamente esta palavra, sim, mas... e daí? Kardec advogou este termo para os adeptos da doutrina "que tem por princípio as relações do mundo material com os Espíritos ou seres do mundo invisível", não para a doutrina que tem por base as escolhas que ele fez a partir daquilo que os Espíritos comunicavam em sua época...

Eu até arrepio em me identificar como Kardecista (...)

14- Pois não devia arrepiar, uma vez que ele é kardecista.

Do item 7 do texto:

O IBGE omitiu o termo espírita, para evitar a seguinte dúvida no Censo: quem responder Espiritismo é adepto do Espiritismo mesmo ou é um adepto do Candomblé ou da Umbanda, identificando-se incorretamente? Eles têm razão! (...)

15- O IBGE não omitiu o termo "espírita", e quem responder que é adepto do "Espiritismo" estará dizendo simplesmente que aceita a existência de Espíritos e a manifestação destes no plano físico sob determinadas circunstâncias. Só isso. Assim, conquanto o indivíduo não possa ser considerado um adepto do Candomblé, uma vez que a crença em Espíritos (no sentido de Kardec) não faz parte dos princípios desta religião, pode ser que ele seja, sim, um umbandista.

Jáder Sampaio termina seu artigo dizendo:

(...) Mas se eu ficar no modelo completo, vou responder: Espiritismo!

E nós terminamos assim:

16- Se os adeptos da Codificação Kardecista quiserem ser precisos, devem responder que são KARDECISTAS. A Lógica agradece.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Moura Rêgo e o "físico" seu amigo...

Tendo iniciado minha participação no “Fórum Espírita” na tarde do dia 10 último (10.07.10), única e exclusivamente para apontar uma grande bobagem que havia sido veiculada por um membro de sua Equipe conhecido como Moura Rêgo (neste tópico), constatei na noite de ontem (12.07.10) que as três mensagens enviadas por mim – e duas respostas que as intercalavam – tinham sido apagadas, e este que vos escreve, banido do fórum... (Vale ressaltar que tal banimento beira as raias do absurdo, pois o indivíduo não só tem sua participação proibida, como também tem o IP de seu computador registrado e fica impedido até mesmo de ler qualquer conteúdo do fórum, que é público!)

Pois bem. Felizmente, eu tive o cuidado de salvar o conteúdo de minha primeira mensagem, assim como das duas respostas de Moura Rêgo e de minha terceira mensagem. É uma precaução que sempre devemos ter ao lidar com ambientes virtuais intelectualmente desonestos, como o referido fórum.

A mensagem inicial de Moura Rêgo que eu repliquei (vide link fornecido acima) é a seguinte:

"André Luiz por Carlos Imbassahy.
« em: 22 de Novembro de 2009, 15:29 »
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Amiugos, no tempo em que tivemos a presença do meu mano Imba comandando o estudo de A Genese na Sala Filosofia Espírita, nossos papos eram quase ininterruptos. Todo dia ou eu ou ele telefonava para acertarmos detalhes dos estudos e num desses ele comenmta oq ue abaixo aparece.
NOTA: Carlos de brito Imbasahy é físico, foi profressor de física na UFRJ.
Abraços,
Moura

Já que V. está rebatendo ou analisando as obras de André Luiz, caro Rai, vou fazer-lhe um comentário que V. poderá utilizar usando meu nome:

Um dos graves erros de André Luiz

Muitos são aqueles que me criticam porque rejeito André Luiz e só o considero como pseudocientista, mas, tenho carradas de razões para fazê-lo, principalmente porque, na minha área de trabalho, como professor de física, os erros por ele cometidos seriam ridicularizados porque qualquer outro analista.

Destaquemos dois:

Em mecanismos da Mediunidade ele diz que "os elétrons fluem pelas escovas do dínamo..." teoria essa ensinada aos alunos do antigo curso científico até 1945 para explicar a existência da corrente elétrica.

Evidentemente, tal afirmativa não tinha nenhum suporte científico porque, sendo uma partícula do átomo, o elétron só pode abandoná-lo em um aparelho como o ciclotron que bombardeia o núcleo do mesmo para desintegrá-lo. E de onde sairia este átomo para fluir pela escova de um dínamo?

Este absurdo já seria suficiente para provar que André Luiz não tem a menor noção da Física atômica.

Mas, o mais curioso de tudo está na configuração feita por este autor relativamente à existência da mônada, que é uma figura puramente abstrata criada por Leibniz em seus conceitos puramente filosóficos para explicar a existência , dentro da Teodicéia idealizada por ele, em 1710 como sendo o elemento primitivo da criação.

É puro devaneio que André Luiz transformou em realidade, como se, de fato, ela existisse para a formação do Universo.

E muitos de seus adeptos, desconhecendo os estudos do velho Gotfried, matemático alemão que se tornou filósofo e que tentou idealizar um conceito matemático para a existência das coisas, sem nenhuma base da Física.

André Luiz ainda comete outros erros terríveis na área da Física.

C.B.Imbassahy
"

E o conteúdo de minha réplica, enviada a 10.07.10, era o seguinte:

"Sr. Moura Rego, antes de tudo gostaria de saber de onde tiraste esta que Carlos de Brito Imbassahy é físico e que, além disso, teria sido professor da UFRJ.

Sobre as críticas tecidas por Brito Imbassahy, vejamos...

Ele diz que "... sendo uma partícula do átomo, o elétron só pode abandoná-lo em um aparelho como o ciclotron que bombardeia o núcleo do mesmo para desintegrá-lo".

É de uma ignorância tremenda... Nem mesmo um colegial mal informado falaria uma bobagem dessas. Os elétrons podem abandonar os átomos de que fazem parte através de processos os mais banais, como um simples pentear de cabelos!... Não bastasse já a lorota dita por Brito Imbassahy, ainda no trecho transcrito ele comete outros erros ao falar que os elétrons só poderiam abandonar o átomo "em um aparelho como o ciclotron que bombardeia o núcleo do mesmo para desintegrá-lo", pois: (1) em bombardeamentos de núcleos atômicos não são produzidos elétrons; (2) apesar de poder ser utilizado para o fim mencionado, a função de um cíclotron é apenas a de *acelerar* partículas carregadas.

É incrível que, mesmo após ter cometido todos erros primários que acabamos de mencionar, Brito Imbassahy ainda teve a ‘cara de pau’ de dizer: "Este absurdo já seria suficiente para provar que André Luiz não tem a menor noção da Física atômica"...

Depois, ao criticar o uso da palavra "mônada" por André Luiz (vide "Evolução em Dois Mundos"), Carlos de Brito Imbassahy mete os pés pelas mãos. Primeiro, desconhecendo que uma palavra é apenas uma palavra, de modo que pode ter vários significados, Brito Imbassahy diz que André Luiz transformou devaneio em realidade, pois "mônada", para Leibniz, é uma palavra com sentido abstrato. Acontece que há acepções outras para a palavra, como, por exemplo... "alma" ou "sopro vital", justamente o sentido adotado por André Luiz! Portanto, não houve erro algum por parte do abnegado médico desencarnado.

Já está passando da hora do movimento espírita tomar ciência de que este senhor, que se diz físico, não merece qualquer crédito em suas ponderações, tamanha a quantidade de besteiras que já falou e continua falando por aí.
"

A resposta de Moura Rêgo, enviada em 11.07.10, iniciou-se assim:

"Carlos de Britto Imbassahy é fíisico e professor catedrático na matéria. (...)"

Depois, ele recomendava-me que eu deveria ter pesquisado antes na Internet para saber sobre a formação de Brito Imbassahy... Ora, mas a indagação do início de minha mensagem fora no sentido de saber onde ele, Moura Rêgo, teria tirado esta que Carlos de Brito Imbassahy seria físico e havia sido professor da UFRJ, o que não me foi dito... Não bastasse isso, Moura transcreve uma das muitas falsas informações sobre a formação de Brito Imbassahy espalhadas pela Internet. Curiosamente, na escolhida por ele dizia-se tudo, menos que Brito Imbassahy era físico e que fora professor da UFRJ...

Em minha segunda mensagem, enviada também em 11.07, eu afirmei que tinha razões de sobra para dizer que Brito Imbassahy não é físico (entenda-se: que não tem qualquer habilitação para pesquisa básica em Física ou artigos científicos publicados na área) e, mais ainda, para dizer que ele nunca fora sequer professor do IF/UFRJ, que diremos professor catedrático. (De fato, eu já havia me certificado disso diretamente com o IF/UFRJ.) Tornei então a repetir a seguinte pergunta para Moura Rêgo: “De onde tiraste esta que Brito Imbassahy é físico e – pior – que teria sido professor catedrático da UFRJ?”

A resposta, também de 11.07, foi a seguinte (negrito meu):

"Me desculpe meu amigo José, mas eu o conheço de perto e de mito tempo, assim como conheci a seu pai, logo lhe poso dizer que essas razões não infundadas.
Deves estar misturando as estações pois ao pai que lhe deu o seu nome, é que cabem algumas das aferições pois foi advogado e se chamava apelas Carlos Imbasshy, o filho o De Britto, é que é físico ou seja professor catedrático cujo diploma eu já vi.
Contudo não estou aqui para discutir pessoas ou desavenças mas sim para falar de doutrina que como se sabe, o nosso bom André Luiz não faz.
Então caro amigo vamos ficar apenas nesse terreno ok? Qualquer noutra dúvida esclareça como próprio Carlos.
Abração,
Moura
"

Minha resposta, no mesmo dia, foi a seguinte:

"Não estou misturando nada, Sr. Moura Rego. Sei muito bem das diferenças entre o Imbassahy pai (C. Imbassahy) e o Imbassahy filho (C. Brito Imbassahy). Em termos éticos e intelectuais, seria como comparar um elefante a uma pulga, respectivamente.

Você está MENTINDO quando diz que Brito Imbassahy fora professor catedrático (da UFRJ, conforme outras mensagens) e que já viu seu diploma. Encaminharei seus e-mails àquela instituição para que ela tome as devidas providências sobre a falsa informação que passaste.

Vamos ficar apenas no terreno da verdade, ok?

Abração
"

Por minhas mensagens terem sido apagadas do "Fórum Espírita" (conforme já afirmei), faço questão de deixar aqui registrado o caso. Como pode ser notado, Moura Rêgo não só mentiu ao dizer que vira algo que não existe (diploma de professor catedrático de Carlos de Brito Imbassahy em nome do IF/UFRJ), como depois se utilizou de um ardil indigno, qual seja o de, como integrante da Equipe do “Fórum Espírita”, ter conseguido apagar suas próprias mensagens do dia 11/07, reproduzidas acima. Que coisa feia, hein?!

[Nota: Este tópico passou a ter seu atual título em 14/07/10]

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Réplica à crítica de José Passini a "Os Quatro Evangelhos"

Em 25/06/07, tendo recebido por e-mail, através de um conhecido, uma análise da obra “Os Quatro Evangelhos” (esta, originalmente em francês, fora compilada por J.B. Roustaing a partir de psicografias de Mme. Collignon) realizada pelo espírita José Passini, aventuramo-nos no mesmo dia, dada a gravidade das críticas, a escrever um texto a respeito, que fora enviado à pessoa que nos remetera o trabalho de Passini e para mais dois conhecidos, aos quais o trabalho de Passini também havia sido enviado. Para que nossa réplica torne-se agora disponível a todo navegante da Internet, reproduzimo-la abaixo. (Realizamos apenas algumas pequenas mudanças em relação a nosso texto de 25/06/07).

O texto de Passini está disponível desde meados de 2007 na Internet, através do portal “Orientação Espírita” (aqui). Mais tarde, apareceu também no portal “Apologética Espírita” (aqui), em Jan/2008, e na revista espírita virtual “O Consolador” (aqui), em Jun/2008. Além dos 4 parágrafos introdutórios, que denominaremos Introdução, e dos 3 parágrafos de fecho, que denominaremos Conclusão, o texto de Passini é composto das seguintes partes: Evolução do Espírito, Autenticidade da Encarnação de Jesus e Aparição de Moisés e Elias. Tomamos por referência estes títulos para designar as seções de nossa réplica, que segue...

Introdução

1. O autor diz que “Os Quatro Evangelhos” foi a primeira e talvez a mais forte das investidas contra o esclarecimento e libertação do espírito humano. Acusação grave e leviana, pois não há nada que indique isso e, muito menos, que comprove.

2. O autor diz: "Na obra “Brasil Coração do Mundo Pátria do Evangelho”, Roustaing é citado como pertencente à equipe de Kardec. Há aqueles que contestam a autenticidade de tal afirmativa".

Não sei se o sr. Passini também pensa, como alguns, que a citação do nome de Roustaing no livro referido tenha sido interpolação da FEB. Se for este o caso, não nos parece, entretanto, que ele tenha razão [trecho alterado em 28/10/12]. Basta ver a p.132 de "Testemunhos de Chico Xavier", obra organizada e compilada por Suely Caldas Schubert e publicada pela FEB. Trata-se da reprodução de uma carta enviada por Chico Xavier a Wantuil de Freitas, então presidente da FEB, a 25.03.47:

"Não te incomodes com a declaração havida de que o trecho alusivo a Roustaing, em “Brasil”, foi colocado pela Federação. Quando descobrirem que a Casa de Ismael seria incapaz disso, dirão que fui eu. De qualquer modo, eles falarão. O adversário tem sempre um bom trabalho - o de estimular e melhorar tudo, quando estamos voltados para o bem" (Existe um fac-símile desta carta no "Reformador" n. 1847, de fevereiro de 1983, p.18)

3. O autor diz que "Roustaing, embora tenha reencarnado com tarefa definida junto à obra de Kardec, desejou produzir obra própria, tornando-se presa fácil de fascinação". Primeiro: Roustaing, em nenhum momento, segundo me consta, desejou fazer obra própria: ele foi convidado a realizá-la por Espíritos que se manifestaram através da médium Mme. Collignon. E, quanto ao estigma de fascinado aplicado a Roustaing, pediríamos ao sr. Passini que nos enviasse o "atestado de fascinação" para que analisemos...

4. O autor diz: "Esses quatro volumes constituem obra fantasiosa (...)". Mais afirmação leviana... Frente ao que foi apresentado pelo sr. Passini em sua crítica, tal atributo não se justifica [trecho acrescido em 01/11/12].

Evolução do Espírito

5. O autor diz que com Kardec "aprende-se que o princípio inteligente percorre, durante milênios incontáveis, as trilhas da evolução, antes de atingir o estágio de humanidade". Será mesmo que é isto o que diz Kardec? Vejamos... (Os grifos são nossos.)

"(...) Segundo alguns, o Espírito não chega ao período humano senão depois de ter sido elaborado e individualizado nos diferentes graus dos seres inferiores da Criação. Segundo outros o Espírito do homem teria sempre pertencido à raça humana, sem passar pela fieira animal. O primeiro desses sistemas tem a vantagem de dar uma finalidade ao futuro dos animais, que constituiriam assim os primeiros anéis da cadeia dos seres pensantes; o segundo é mais conforme à dignidade do homem (...) ". (Trecho de comentário de Kardec à questão 613 de "O Livro dos Espíritos")

"(...) Desse progresso constante, invencível, irrecusável da espécie humana, e do estacionamento indefinido das outras espécies animadas, concluireis comigo que, se existem princípios comuns a tudo o que vive e se move na Terra (...), não é menos verdade que somente vós, Espíritos encarnados, estais submetidos a essa inevitável lei do progresso que vos impele fatalmente para a frente e sempre para a frente. Deus pôs os animais ao vosso lado como auxiliares para vos alimentarem, para vos vestirem e vos ajudarem. (...) Mas, na sua sabedoria, não quis que fossem submetidos à mesma lei do progresso. Tais como foram criados, assim ficaram e ficarão até a extinção de suas espécies." (Trecho devido ao Espírito Erasto; item 236 de "O Livro dos Médiuns")

6. Depois, Passini cita um trecho de "Os Quatro Evangelhos":
"Como é que, chegado ao período de preparação para entrar na humanidade, na espiritualidade consciente, o Espírito passa desse estado misto, que o separa do animal e o prepara para a vida espiritual, ao estado de Espírito formado, isto é, de individualidade inteligente, livre e responsável?"
“É nesse momento que se prepara a transformação do instinto em inteligência consciente. Suficientemente desenvolvido no estado animal, o Espírito é, de certo modo, restituído ao todo universal, mas em condições especiais é conduzido aos mundos ad hoc, às regiões preparativas, pois que lhe cumpre achar o meio onde elaboram os princípios constitutivos do perispírito. (...) Aí perde a consciência do seu ser, porquanto a influência da matéria tem que se anular no período da estagnação, e cai num estado a que chamaremos, para que nos possais compreender, letargia. Durante esse período, o perispírito, destinado a receber o princípio espiritual, se desenvolve, se constitui ao derredor daquela centelha de verdadeira vida. Toma a princípio uma forma indistinta, depois se aperfeiçoa gradualmente como o gérmen no seio materno e passa por todas as fases do desenvolvimento. Quando o invólucro está pronto para contê-lo, o Espírito sai do torpor em que jazia e solta o seu primeiro brado de admiração. Nesse ponto, o perispírito é completamente fluídico, mesmo para nós. Tão pálida é a chama que ele encerra, a essência espiritual da vida, que os nossos sentidos, embora sutilíssimos, dificilmente a distinguem.”

E faz o seguinte comentário:
"Interessante notar, também, que o Espírito, depois de todas as aquisições individuais retorne ao “todo universal”, onde, certamente, perderia a sua individualidade".

É de uma má-fé terrível... Observem que no texto de "Os Quatro Evangelhos" está inclusive em itálico a expressão "de certo modo", referente à restituição do Espírito ao todo universal. É óbvio que o Espírito não perderia sua individualidade!... E o autor da crítica diz mais (erros reproduzidos tais e quais): "como teria, um Espírito recém-saído da animalidade ter um perispírito tão sutil a ponto de quase ser invisível aos Espíritos Superiores?", pergunta. Mas a questão da superioridade de um Espírito demanda um referencial. O que os Espíritos responsáveis pelos ditados disseram foi que, para eles, o Espírito ensaiando para a atuação teria o perispírito “completamente fluídico”, nada mais...

7. O autor cita que com "Kardec, aprende-se que o progresso do Espírito é irreversível, o que é racional, pois se não houvesse a irreversibilidade do progresso espiritual não haveria segurança nem estabilidade no Universo", como se com Roustaing não fosse assim. A "queda do Espírito", mencionada em "Os Quatro Evangelhos", em tese nada contradiz as leis do progresso [período modificado em 15/07/10]. Todos nós caímos ao aprendermos a andar. Existirá alguém que afirmará que, por isso, não progredimos na arte de caminhar?

8. O autor diz: "Em Roustaing, vê-se que, além de admitir a Metempsicose, afirmam seus interlocutores possa um Espírito voltar à Terra, ou a outros mundos, animando corpos primitivíssimos, como larvas!". E cita:

"Haveis dito que os Espíritos destinados a ser humanizados, por terem errado muito gravemente, são lançados em terras primitivas, virgens ainda do aparecimento do homem, do reino humano, mas preparadas e prontas para essas encarnações e que aí encarnam em substâncias humanas, às quais não se pode dar propriamente o nome de corpos, nas condições de macho e fêmea, aptos para a procriação e para a reprodução. Quais as condições dessas substâncias humanas?"
“São corpos ainda rudimentares. O homem aporta a essas terras no estado de esboço, como tudo que se forma nas terras primitivas. O macho e a fêmea não são nem desenvolvidos, nem fortes, nem inteligentes. Mal se arrastando nos seus grosseiros invólucros, vivem, como os animais, do que encontram no solo e lhes convenha. As árvores e o terreno produzem abundantemente para a nutrição de cada espécie. Os animais carnívoros não os caçam. A providência do Senhor vela pela conservação de todos. Seus únicos instintos são os da alimentação e os da reprodução. Não poderíamos compará-los melhor do que a criptógamos carnudos. Poderíeis formar idéia da criação humana, estudando essas larvas informes que vegetam em certas plantas, particularmente nos lírios.”
(págs. 312 / 313)

Vejamos, primeiramente, que, ao contrário do que diz Passini, em "Os Quatro Evangelhos" NÃO se admite a Metempsicose:

“O que vos revelamos não é a metempsicose. O que pomos sob os vossos olhos é a lei natural, é a igualdade, perante Deus, de tudo o que existe, de tudo que vos ferir os sentidos. Deus, pai uniformemente bondoso para todos os seus filhos, não tem preferências. Todas as criaturas são obra sua; nenhuma será deserdada.” (pág. 307)

Depois, observemos o erro crasso de interpretação de Passini ao afirmar que os interlocutores de Roustaing afirmaram que o Espírito pode voltar a um mundo animando corpos como larvas. A questão dos criptógamos carnudos foi utilizada como mero exemplo, apenas a título de comparação! E foi dito claramente que os mundos em foco seriam específicos, não incluindo a Terra, ao contrário do que afirma Passini... [período modificado em 15/07/10]

Autenticidade da Encarnação de Jesus

9. O autor diz: "Kardec mostra Jesus como o modelo mais perfeito para a evolução humana, logo, o seu corpo deveria ter a mesma constituição do corpo daqueles aos quais ele deveria servir de modelo (...)". Essa "lógica" eu não conhecia... Ora, se o estágio objetivado ("modelo mais perfeito") já estivesse incluso no caminho em percurso, ele deixaria de ser um objetivo! [período modificado em 15/07/10] Do mesmo modo, se o corpo de Jesus fosse igual ao nosso, ele deixaria de ser o modelo perfeito... Além disso, os Espíritos referiam-se à modelo moral, não à modelo corporal!

10. Referindo-se a Jesus, Passini diz:
"Roustaing (...) ainda o chama de um Deus milagrosamente encarnado! (1º vol., págs. 242 / 243): “(...) um homem tal como vós quanto ao invólucro corporal e, ao mesmo tempo, quanto ao Espírito, um Deus: portanto, um homem-Deus.” (pág. 242)"

Afirmações inverídicas! O autor, capciosamente, suprimiu o início do trecho por ele transcrito. Vejamo-lo mais completamente (destaque meu):

“Sabeis também e já vos dissemos: Jesus tinha que ser, AOS OLHOS DOS HOMENS: - primeiramente, um homem tal como vós, revestido da libré material humana (...); - depois, cumprida a sua missão terrena, um Deus milagrosamente encarnado, em conseqüência da divulgação do que o anjo revelara a Maria e a José (...); - por último, um homem tal como vós quanto ao invólucro corporal e, ao mesmo tempo, quanto ao Espírito, um Deus: portanto, um Homem-Deus." (pág. 242)

Ou seja, os Espíritos responsáveis por "Os Quatro Evangelhos" referiam-se a como Jesus deveria parecer aos olhos dos homens, não sobre a realidade de sua natureza!

Aparição de Moisés e Elias

11. O autor diz:
"Em Roustaing, de maneira fantasiosa e completamente inverossímil, numa tentativa de desacreditar a reencarnação, misturando fatos e fantasias, é declarado que Moisés, Elias e, conseqüentemente, João Batista são o mesmo Espírito, e que ali, no Monte Tabor, um outro Espírito tomou a aparência de Moisés e conversou com Jesus".

Na realidade, o que é dito em "Os Quatro Evangelhos" é que um outro Espírito tomou a aparência de Elias e conversou com Jesus. Mas tudo bem. Já que o autor arfa o peito a dizer que a afirmação de Roustaing sobre a aparição em foco é "fantasiosa e completamente inverossímil", que ele prove isto, tão íntimo que está com a realidade dos fatos... Uma curiosidade: vejam que, nos comentários 67 e 105 de "Caminho, Verdade e Vida", Emmanuel diz "presença de Moisés e do companheiro" e "Moisés e outro emissário divino". Ora, sendo Elias uma figura bíblica importante, não nos parece natural esta omissão de Emmanuel. Entretanto, ela confirma o que diz Roustaing: Elias e Moisés eram o mesmo Espírito, sendo que no Tabor um outro Espírito tomou a aparência de Elias.

Conclusão

12. "A obra é volumosa, pesada, extremamente repetitiva, escrita em tom catedrático, pretensioso, que nos remete diretamente a “O Livro dos Espíritos”, item 104, no magistral estudo que o Codificador faz a respeito da “Escala Espírita”, quando se refere aos Espíritos pseudo-sábios". Mais difamação gratuita...

12. Uma vez que o autor cita Emmanuel sobre a questão da "vaidade de médiuns invigilantes", atribuindo este caráter à medianeira de "Os Quatro Evangelhos", Mme. Collignon, seria de bom grado que ele consultasse as questões 205 e 285 de "O Consolador", obra psicografada por Francisco C. Xavier, referentes, respectivamente, à questão da "queda" e ao nascimento de Jesus, e soubesse que o abnegado mentor do médium mineiro prefaciou a obra "Vida de Jesus baseada no Espiritismo", de Antônio Lima, publicada pela FEB a partir de sua 2a. edição e que constitui uma vigorosa defesa das teses roustainguistas.

13. Para finalizar, frente ao fecho do texto de Passini ("Felizmente, a onda de roustainguismo está passando. Mas como existem ainda muitos volumes dessa obra em bibliotecas e livrarias, animamo-nos a fazer estas anotações"), nós diríamos o seguinte:

É fato que a onda de anti-roustainguismo continua implacável. Na ausência de coisa melhor a se fazer, aqui e acolá sempre aparecem alguns espíritas arvorando-se “donos da verdade” em questões controvertidas. Gostaríamos que o leitor das linhas acima entendesse que não estamos a endossar a obra “Os Quatro Evangelhos”, mas apenas a evidenciar uma injustiça, pois foi com o único objetivo de que uma análise pontuada de incorreções e de má-fé não permanecesse sem uma réplica que escrevemos nosso texto.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Picaretagem, subinformação e censura em um blog espírita

Pessoal, hoje irei tratar de um tópico deveras desagradável: picaretagem, subinformação e censura em um blog espírita. Eu nunca abordaria publicamente um assunto desses não fosse forçado pelas circunstâncias. Porém, não havendo mesmo outro recurso...

O caso é o seguinte: tendo encontrado em http://ensinoespirita.blogspot.com/2010/02/analisando-andre-luiz.html, parte do blog REPÚBLICA DOS ESPÍRITOS, uma transcrição de uma entrevista de 2004 realizada pelo jornal ABERTURA, de Santos-SP, com Érika de Carvalho Bastone, autora do malogrado trabalho “A Física no Espiritismo”, apresentado no VIII Simpósio Brasileiro de Pensamento Espírita (SBPE), ocorrido em 2003, teci em 01/06/10 o seguinte comentário:

Vale ressaltar que o trabalho apresentado no VIII SBPE (2003) pela Srta. Érika de Carvalho apresenta inúmeros problemas. Muito do que ela atribuiu como erros de André Luiz está baseado na falta de conhecimentos dela nos pontos que critica. Tenho um artigo escrito sobre isso. Basta contatar-me que disponibilizo.

Curiosamente, meu comentário foi simplesmente censurado, pois não apareceu no referido blog até este exato momento... Não seria lícito considerar que o responsável pelo blog, Francisco Amado, não tenha tomado conhecimento de meu comentário, pois há postagens dele lá após 01/06. Sendo assim, qual seria a razão da referida censura? Simplesmente impossibilitar que o contraditório esteja ao alcance das pessoas que lerem a matéria...

No mesmo dia 01/06/10, e no mesmo blog, tecemos o seguinte comentário sobre o artigo “Analisando Evolução em Dois Mundos” (http://ensinoespirita.blogspot.com/2010/03/analisando-evolucao-em-dois-mundos.html):

Ei, este texto é uma cópia editada de um localizado em http://obraspsicografadas.haaan.com/2007/erros-de-fsica-e-biologia-encontrados-no-livro-evoluo-em-dois-mundos/, com a única diferença de que vc sumiu com a referência ao site "Criticando Kardec"... Forneça o link do artigo original, pois você não é o autor do texto!

A resposta do responsável pelo blog, postada no mesmo dia, foi a seguinte:

Não caro amigo não sumi com o link. Apenas esqueci de postar.

Mas pode facilmente ser constatado que ele sumiu, sim, com a referência! Que ele esquecera de fornecer o link do artigo original até dá - com muito esforço - para acreditarmos (este problema inclusive já foi corrigido). Agora, sobre a referência que mencionei, vejamos... No artigo original consta:

Referências
. Xavier, Chico; Vieira, Waldo. “Evolução em Dois Mundos” (1960). FEB.
. Bastone, Érika de Carvalho. “A Física no Espiritismo” (2003), apresentado no VIII Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita.
. Siqueira, Julio César. http://paginas.terra.com.br/educacao/criticandokardec/erros1.htm (acessado dia 29/10/2007)
. http://site.andreluiz.vilabol.uol.com.br/CA_luciano_dos_anjos.html (acessado dia 29/10/2007)


Já na versão espertalhona de Amado...

Referências
. Xavier, Chico; Vieira, Waldo. “Evolução em Dois Mundos” (1960). FEB.
. Bastone, Érika de Carvalho. “A Física no Espiritismo” (2003), apresentado no VIII Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita. Este artigo foi apresentado no VIII Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita (evento bienal), ocorrido em Santos, de 17 a 19.10.2003. O organizador desses simpósios é o ICKS - Instituto Cultural Kardecista de Santos.


O leitor notou a diferença? Pois é... O link para a entrevista com Luciano dos Anjos foi também fornecido na versão de Amado (no corpo do texto, fora das referências), mas o link para o “Criticando Kardec” (atualmente em outro endereço)... simplesmente sumiu! E por quê? Simples. Porque Francisco Amado não hesita em desaparecer com referências e em censurar comentários para que não sejam vislumbradas formas de pensar diferentes das suas. Atitude lamentável sob todos os aspectos. Do mesmo modo que meu comentário daria oportunidade às pessoas saberem que muitas das críticas a André Luiz são infundadas, o portal “Criticando Kardec” mostra que o pedagogo francês errou em alguns pontos. Mas, como Amado é um fanático bajulador de Kardec e também um detrator de André Luiz, pronto! Desapareceu com a referência mencionada e censurou meu comentário...

Importa também, aqui, tecer duas considerações:

1- A reprodução da matéria do jornal ABERTURA encontra-se em um tópico do blog intitulado, pretensiosamente, “Sob o Crivo da Razão”, que apresenta também, dentre outros, dois artigos de Carlos de Brito Imbassahy (“Um Deus perfeito é capaz de criar uma criatura imperfeita?” e “Querem acabar com Kardec!”) e um de Erasto de Carvalho Prestes (“Chico Xavier, um Mito Nacional – III”). O primeiro autor: um pseudocientista de primeira linha; o segundo: um basbaque que deve estar colhendo agora no Mundo Espiritual os frutos que plantou na Terra... Em momento oportuno, trataremos destes dois personagens.

2- Já a matéria “Analisando Evolução em Dois Mundos”, ela aparece em um tópico do blog chamado “Cientistas Espíritas”. Ironicamente, vemos também aí textos de Carlos de Brito Imbassahy (“Deturpação do Espiritismo” e “Deus Existe?”)... Porém, o mais curioso não é isto, mas o seguinte: encontramos no tópico mencionado artigos aparentemente (depois de não ter constado a real autoria daquele texto que mencionamos, nunca se sabe...) do próprio Francisco Amado: “A Parapsicologia e o Espiritismo”, “Daniel D. Home Um Católico Ortodoxo que Levitava” e “Perito Criminal Confirma ser Autentica Foto de Espírito” (estrutura e grafias mantidas). Como ele não cita qualquer cientista espírita nestes textos, deveríamos deduzir que o próprio Francisco Amado seria o cientista espírita em questão! Piada?...

Bem, pessoal, fico por aqui.

sábado, 5 de junho de 2010

Sobre a INTRODUÇÃO À[sic] “O LIVRO DOS ESPÍRITOS” - Parte 3 (final)

Continuando... (Para ler a parte 2 desta análise, veja o post anterior -- aqui.)

20) Kardec examina o problema científico do Espiritismo no capítulo VII da “Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita”. (...) Kardec insiste no caráter científico da doutrina. Caráter próprio, como ele explica nos capítulos citados (...) [Pág. 18]

Primeiramente, Herculano Pires cita apenas um capítulo da “Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita”, de modo que se equivocou ao referir-se depois a “capítulos citados”. Depois, no capítulo mencionado da “Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita” (VII), não é verdade que Kardec insiste no caráter científico do Espiritismo. Em nenhum momento ele diz isto. Inclusive, Kardec faz questão de ressaltar, ali, que “o Espiritismo é o resultado de uma convicção pessoal que os sábios podem ter como indivíduos”, que “deferir a questão à Ciência seria o mesmo que entregar a uma assembléia de físicos ou astrônomos a solução do problema da existência da alma” e que “o Espiritismo não é da alçada da Ciência”! Ou seja, para Kardec, quando da redação de tais trechos, Ciência seria uma coisa; Espiritismo, outra.

21) Por que essa insistência no caráter científico? Porque “O Livro dos Espíritos” vem abrir uma nova era no estudo dos problemas espirituais. Até a sua publicação, esses problemas eram tratados de maneira empírica ou apenas imaginosa. (...) [Pág. 18]

Bem, aqui Herculano Pires comete dois erros. Primeiro: como explicado no item anterior, não houve referência por parte de Kardec em “O Livro dos Espíritos” a um alegado caráter científico do Espiritismo. Segundo: o lado empírico da abordagem dos ditos "problemas espirituais" continuou mesmo após a publicação de “O Livro dos Espíritos”. É justamente aí a "zona de confluência" entre Espiritismo e Ciência.

22) (...) Tudo aquilo que, antes dele [de “O Livro dos Espíritos”], constitui o espiritualismo, pode ser chamado “espiritualismo utópico”, e tudo o que vem com ele e depois dele, seguindo sua linha doutrinária, “espiritualismo científico”, como fazem os marxistas com o socialismo de antes e depois de Marx. [Págs. 18-19]

Mais um exagero de Herculano Pires. As pesquisas sobre os fenômenos espiritualistas só ganhariam mesmo ares científicos após a formação do comitê da London Dialectical Society para a pesquisa dos fenômenos mencionados, o que ocorreu em janeiro de 1869. Isto apesar de tais pesquisas terem-se iniciado antes mesmo de "O Livro dos Espíritos", com os trabalhos do químico estadounidense Robert Hare, que foram enfeixados em sua obra "Experimental investigation of the spirit manifestations, demonstrating the existence of the spirits and their communion with mortals", publicada em 1855.

23) (...) Com ele [“O Livro dos Espíritos”], o espírito e seus problemas saíram do terreno da abstração, para se tornarem acessíveis à investigação racional, e até mesmo à pesquisa experimental. (...) [Pág. 19]

Conforme já mencionado no item anterior, a pesquisa experimental dos fenômenos espíritas iniciou-se antes mesmo da elaboração de “O Livro dos Espíritos”.

24) (...) O homem deve conter-se nos limites de si mesmo, cuidar de suas imperfeições, melhorar-se. Basta-lhe saber que Deus existe, e é justo e bom. Disso ele não pode duvidar, porque “pela obra se reconhece o obreiro”, a própria natureza atesta a existência de Deus, sua própria consciência lhe diz que ele existe, e a lei geral da evolução comprova a sua justiça e a sua bondade. (...) A negação de Deus é, para o Espiritismo, como a negação do Sol. O ateu, o descrente, não é um condenado, um pecador irremissível, mas um cego, cujos olhos podem ser abertos, e realmente o serão. (...) Nada se pode entender sem Deus. Ele é o centro e a razão de ser de tudo quanto existe. Tirar Deus do Universo é como tirar o Sol do nosso sistema. Simples absurdo.
[Pág. 20]

É interessantíssimo como Herculano Pires se contradiz e, ao mesmo tempo, escancara seu lado de “teólogo ditador”. Depois de iniciar com um profundo ensinamento (“o homem deve conter-se nos limites de si mesmo, cuidar de suas imperfeições, melhorar-se”), ele mesmo não contém-se nos seus limites! Pode um negócio desses?... O que segue é um surrado rosário que bem lembra a escolástica medieval, que tentou provar com argumentos alegadamente lógicos a existência de Deus... Não bastasse toda aquela “lenga-lenga”: a) Herculano Pires comete um erro ao dizer que para o Espiritismo a negação de Deus é como a negação do Sol, pois essa questão é absolutamente irrelevante; b) Sem apresentar qualquer argumento plausível, qualifica os ateus de “cegos”, quando a “cegueira”, como estamos vindo mostrando, é toda dele; c) Por fim, em um arremate de crente fervoroso, cujo uso da razão não é dos melhores, ele diz que “nada se pode entender sem Deus”. Bem, seria preciso comentar? Acho que não...

25) Este, em linhas gerais, o livro que a 18 de abril deste ano [1957] completou cem anos (...)
[Pág. 22]

Ora, mas durante toda a sua introdução J. Herculano Pires tratou da 2ª. edição original de “O Livro dos Espíritos”, que é datada de... 1860! Foram feitas referências explícitas à divisão geral e aos capítulos desta edição, que possui mais partes e capítulos que a edição de 1857, além de outra estrutura.

Conclusão dos comentários ao texto de abertura da edição comemorativa da LAKE aos 100 anos de "O Livro dos Espíritos" (1957), escrito por J. Herculano Pires

Bem, pessoal, é isso. Em pouco mais de 12 páginas, Herculano Pires incorreu em todos os problemas mencionados e discutidos neste e nos dois posts anteriores sobre o assunto. Para quem é considerado uma espécie de mito no movimento espírita brasileiro, fica ilustrado em que pé anda a reflexão dos espíritas brasileiros...

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Sobre a INTRODUÇÃO À[sic] “O LIVRO DOS ESPÍRITOS” - Parte 2

Continuando... (Para ler a parte 1 desta análise, clique aqui.)

11) É o que se verifica, por exemplo, com as ligações do Cristianismo e o Espiritismo, que se definem completamente em "O Evangelho", ou com o problema controvertido da origem do homem, que vai ter a sua explicação definitiva em "A Gênese", ou ainda com as questões mediúnicas, solucionadas no "O Livro dos Médiuns", e as teleológicas e escriturísticas, no "O Céu e o Inferno" [Pág. 13]

É, na cabeça de H. Pires, tudo foi resolvido definitivamente com as obras da Codificação que complementam "O Livros dos Espíritos": as ligações entre Cristianismo e Espiritismo, a origem do homem, os fenômenos mediúnicos, as questões teleológicas... Tenha dó!

12) Sócrates ouvias as vozes do seu "daimónion" e discutia com o Oráculo de Delfos. Mas Kardec não se limitou a isso: foi mais longe, dialogando com todo o mundo invisível, analisando rigorosamente as suas vozes (...)
[Pág. 16 - grifos nossos]

Exagerado, esse Herculano Pires...

13) Ao publicar "A Gênese", em 1868, Kardec pode acentuar que "O Livro dos Espíritos", lançado dez anos antes, continuava tão sólido como então
[Pág. 16]

"O Livro dos Espíritos" foi publicado onze anos antes de "A Gênese", não dez.

14) Na verdade, o desenvolvimento da ciência se processa exatamente na direção dos princípios espíritas (...) [Pág. 16]

Ah, é? Não me diga?!...

15) Essa segurança dos princípios espíritas decorre da legitimidade da fonte espiritual deste livro, da pureza de seus meios de transmissão mediúnica, da precisão do método kardeciano [Pág.17]

Desconheço qualquer recurso que possa legitimar a fonte espiritual de "O Livro dos Espíritos". Além disso, o método de Kardec esteve muito longe de ser preciso, conforme teremos oportunidade de evidenciar em textos posteriores, que pretendemos publicar em nosso outro blog.

[16) (...) Não é Kardec, nem este ou aquele Espírito em particular, nem um grupo de homens, mas toda a falange do Espírito da Verdade, enviada à Terra em cumprimento da promessa de Jesus - a fonte espiritual de "O Livro dos Espíritos" [Pág. 17]

Isso é o que diz Herculano Pires. A realidade, porém, pode não ser bem essa...] [Trecho acrescentado em 21/05/10]

17) (...) As sessões mediúnicas não podem fugir ao método kardeciano, que se comprovou na prática, há um século, o único realmente eficiente, e que procede, como vimos, das reuniões mediúnicas da era apostólica [Pág. 18]

Vá ser bitolado assim lá no "cafundó do Judas"...

18) Problemas secundários, como o da assinatura de certas comunicações por nomes célebres, são explicados por Kardec na "Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita" capítulos XI e XII (...) [Pág. 18]

E a explicação é muito "ruinzinha", diga-se de passagem. Trataremos disso em outro post.

19) A explicação está na sinceridade de Kardec e na sua fidelidade aos Espíritos que lhe revelaram a doutrina. Ocultar-lhes os nomes seria deixar uma possibilidade de lhe atribuírem a obra (...) [Pág. 18]

Essa foi a resposta de Herculano Pires à pergunta de por que Kardec não ocultou os nomes que subscrevem os "Prolegômenos", publicando apenas a mensagem, como fez com a maioria das respostas de “O Livro dos Espíritos”. Não irei colocar em xeque a sinceridade de Kardec e sua fidelidade aos Espíritos, mas dizer que se ele tivesse ocultado os nomes as pessoas poderiam achar que a obra era sua é conversa fiadíssima, pois está claramente dito antes do texto principal dos "Prolegômenos": "Eis os termos em que [os Espíritos] nos deram, por escrito e por meio de muitos médiuns, a missão de escrever este livro". Portanto, não precisava citar nomes.

(Para ler a continuação desta análise, clique aqui.)

quarta-feira, 31 de março de 2010

Sobre a INTRODUÇÃO À[sic] “O LIVRO DOS ESPÍRITOS” - Parte 1

O texto cujo título foi mencionado acima em caixa alta (o acento agudo está no original), e cuja primeira parte será analisada nas linhas que se seguem, foi escrito em 1957 por J. Herculano Pires para uma edição especial de "O Livro dos Espíritos" pela LAKE (Livraria Allan Kardec Editora), comemorativa do centenário da 1ª. edição original deste livro. Não bastasse ser insosso, “chato pra chuchu”, o texto apresenta vários erros históricos, e o fanatismo abunda em suas linhas. Abaixo, e nos próximos posts sobre o assunto, iremos numerar e comentar as passagens que consideramos problemáticas.

1) Com este livro, a 18 de abril de abril de 1857, raiou para o mundo a era espírita.
[Pág. 11]

O texto de Herculano Pires começa assim. E como começa mal!... Ainda que possa ser aceito, com muita previdência, que “Le Livre des Esprits” inaugurara a "era espírita" (existe isso?), Herculano Pires, se realmente fosse claro e verdadeiro, deveria ter escrito o trecho acima mais ou menos assim: "Com a 1ª. edição original deste livro, lançada a 18 de abril de 1857, raiou para o mundo a era espírita". É notável que tanto a editora (LAKE) quanto o tradutor (Herculano Pires) tenham omitido este fato tão importante: que a edição especial de 1957 (a primeira de “O Livro dos Espíritos” pela LAKE) é da 2ª. edição francesa da obra, publicada em 1860, bastante modificada e aumentada, quase um outro livro...

2) Nele se cumpria a promessa evangélica do Consolador, do Paracleto ou Espírito da Verdade. [Pág. 11]

Isto foi dito logo em continuidade ao trecho já transcrito. Bem, em minha opinião, o tradutor está a nos pedir demais... Além de termos que acreditar que a tal promessa evangélica realmente ocorreu, precisamos ainda aceitar que “O Livro dos Espíritos” é o seu cumprimento!...

3) Dizer isso equivale a afirmar que “O Livro dos Espíritos” é o código da nova fase da evolução humana. E é exatamente essa a sua posição na história do pensamento. [Pág. 11]

Isto foi o que veio logo em seguida. Se o tradutor ainda estivesse entre nós, mereceria ouvir: “Menos, Sr. Herculano, menos! Faça-nos favor!”...

4) Sobre este livro se ergue todo um edifício: o da Doutrina Espírita. Ele é a pedra fundamental do Espiritismo, o seu marco inicial. O Espiritismo surgiu com ele (...) Antes deste livro não havia Espiritismo, e nem mesmo esta palavra existia. [Pág. 11]

É lamentável que aquilo que o nosso tradutor tenha feito questão de enfatizar (falou pelo menos três vezes a mesma coisa!) seja um erro. O Espiritismo, como doutrina fundada sobre a crença na existência de Espíritos e em suas manifestações, vem desde tempos imemoriais. Modernamente, já temos notícias de trabalhos de cunho doutrinário baseados na comunicação dos Espíritos desde 1853 (antes da publicação de “Le Livre des Esprits”, portanto), vindos da lavra do juiz J. W. Edmonds, dos E.U.A. Mesmo sob o caráter de "ciência prática" já havia trabalhos a respeito desde 1855, como a obra "Experimental investigation of the spirit manifestations, demonstrating the existence of the spirits and their communion with mortals", do químico Robert Hare, também dos E.U.A. Até a palavra “Espiritismo”, em sua versão inglesa, já era usada anos antes da publicação de "Le Livre des Esprits", como pode ser visto, por exemplo, aquiaqui aqui.

5) (...) depois que Kardec o lançou à publicidade, “contendo os princípios da Doutrina Espírita”, uma nova luz brilhou nos horizontes mentais do mundo. [Pág. 11]

Como fizemos no item 3, repetiríamos novamente: “Menos, Sr. Herculano, menos!”...

6) (...) surgiu a Bíblia. Não foi Moisés quem a escreveu, mas foi ele o motivo central dessa primeira codificação do novo ciclo de revelações: o cristão. (...) [Pág. 11]

Confessamos que chegamos a pensar que Herculano Pires já apresentava algum problema de senilidade quando escrevera esta “Introdução” que estamos a analisar. Mas, considerando que ele estava com os seus quarenta e poucos anos na ocasião, tal suspeita talvez não se justifique muito... Analisem bem, pessoal: dizer que Moisés foi o motivo central da Bíblia e que esta (em sua totalidade) constitui-se na codificação de uma revelação cristã é demais, não é, não?...

7) (...) Mais tarde, quando a influência bíblica já havia modelado um povo (...) apareceu Jesus; e das suas palavras, recolhidas pelos discípulos, surgiu o Evangelho. [Pág. 11]

Aqui, Herculano erra ao considerar Jesus (e consequentemente os Evangelhos) como algo à parte dos acontecimentos bíblicos. Depois, vale frisarmos uma advertência que também se aplica à obra de Kardec: o uso de “Evangelho” em vez de “Evangelhos”. Das palavras de Jesus, Evangelhos surgiram.

8) A Bíblia é a codificação da primeira revelação cristã (...) O Evangelho é a codificação da segunda revelação cristã (...) Mas assim como, na Bíblia, já se anunciava o Evangelho, também neste aparecia a predição de um novo código (...) [Pág. 11]

Vide comentários anteriores (itens 6 e 7). Além disso, se houve uma revelação cristã, aquela contida nos Evangelhos deve ser encarada como a primeira.

9) (...) processo das revelações cristãs: das formas incongruentes da Bíblia, passamos ao equilíbrio clássico do Evangelho, e deste à libertação espiritual de “O Livro dos Espíritos”. (...) A Bíblia é a síntese da antigüidade, como o Evangelho é a síntese do mundo greco-romano-judaico (...) [Pág. 12]

Vide comentários anteriores (itens 6, 7 e 8).

10) (...) os princípios evangélicos passam diretamente, sem necessidade de readaptações ou modificações, em sua pureza primitiva, para as páginas deste livro (...) [Pág. 12]

O tradutor refere-se a “O Livro dos Espíritos”. Com base em que ele afirmou que o dito livro transmite os princípios evangélicos em sua pureza original? Seria mais um “coelho” que Herculano Pires tirara de sua “cartola”?...

(Este texto foi ligeiramente modificado em 04/04/10)

(Para ler a continuação da análise, clique aqui.)

terça-feira, 30 de março de 2010

Apresentação

Nosso objetivo a partir dessa postagem inicial é oferecer aos leitores virtuais uma análise crítica da versão de J. Herculano Pires de “O Livro dos Espíritos”. Aos problemas da obra em si, originariamente escrita em francês (“Le Livre des Esprits”), Herculano Pires ainda acrescentou outros. Além de ter adulterado a obra, traduziu trechos equivocadamente e fez comentários no mínimo questionáveis, seja na sua "Introdução", seja nas notas de rodapé.

Nossa insatisfação com a referida versão de "O Livro dos Espíritos" surgiu tão logo iniciamos sua leitura, em meados de 2003, data que coincide com o início de nossos estudos espiritualistas. [No 2o. semestre de 2004, realizando um estudo mais cuidadoso da obra, notamos que grande parte dos problemas ali apresentados eram na realidade devidos a Herculano Pires, o tradutor - nota de 22.06.10] Em junho de 2006, para que nossos pontos de vista não ficassem restritos apenas a nós mesmos e a algumas poucas pessoas com as quais comentamos a respeito, iniciamos um blog para dar vazão à nossa crítica. Entretanto, por injunções que a vida nos impôs, não pudemos dar continuidade à nossa proposta, e sobre este assunto tudo não passou do primeiro post...

Mês passado, entretanto, lembrando do trabalho e vislumbrando possibilidades de continuá-lo, relemos o mencionado post e chegamos até a fazer pequenas alterações nele (vide o texto revisado abaixo), com vistas a continuar a escrever sobre o assunto. Porém, retomando o estudo do exemplar de “O Livro dos Espíritos” ali citado (61ª. ed. da LAKE, de Dez/2000), decidimos mudar de planos quanto ao local de apresentação de nossa análise crítica: faríamos isto em um blog dedicado exclusivamente ao Espiritismo no Brasil. Nada mais natural. É esta a nossa proposta aqui. E achamos que agora vai...

(Nota: a postagem seguinte relacionada a este assunto encontra-se aqui.)
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SÁBADO, JUNHO 17, 2006


A perpetuação de um erro: comentários sobre a tradução herculana de "O Livro dos Espíritos"

Antes fosse a perpetuação de apenas um erro... Na realidade, porém, é considerável a quantidade de erros encontrados na tradução de J. Herculano Pires (1914-1979) de "Le Livre des Esprits". Só para constar, é bom que se saiba que as mais conhecidas traduções brasileiras deste livro (por Guillon Ribeiro, edições pela FEB; por J. Herculano Pires, edições pela LAKE, pela FEESP e pela Edicel; por Salvador Gentile, edições pelo IDE e pela Ed. Boa Nova; além da tradução de Julio Abreu Filho, lançada pela Ed. Pensamento) são da 2a edição francesa, de 1860. A 1a edição, de 1857, foi desconsiderada por Kardec após considerações feitas pelos Espíritos. Bastante aumentada (a 1a edição continha pouco mais de 500 blocos de pergunta-resposta), a 2a edição foi considerada a versão definitiva. Mas voltemos ao tema deste artigo.

Não sei por qual motivo J. Herculano Pires resolveu traduzir "Le Livre des Esprits". Na época em que dedicou a este mister, já havia uma tradução esmerada disponível no mercado, devida a Guillon Ribeiro (1875-1943) e editada pela FEB. Mas o fato é que Herculano se propôs a este trabalho... E falhou em alguns pontos, veremos por quê. Para análise, utilizamos a 61a edição da LAKE, de Dezembro de 2000.

Estes tempos modernos pedem - quase exigem - que sejamos sucintos. Procurarei sê-lo o mais possível. De antemão, deixo claro que não tenho nada contra o caráter de J. Herculano Pires. Não o conheci (e nem poderia, pois nasci depois de seu desencarne) e não emitirei aqui qualquer juízo sobre sua vasta obra. Apenas analisarei com detalhe seus erros na tradução de "Le Livre des Esprits". Para maior clareza, procurei dividi-los em três classes, a saber:
1. Erros relacionados a certo desconhecimento de nossa língua pátria, o português;
2. Erros relacionados a um entendimento incompleto do idioma francês;
3. Problemas na estrutura lógica das ideias esboçadas na "Introdução" e nas notas de rodapé.

O mito herculano persiste. Muitos consideram a tradução de J. Herculano Pires de "Le Livre des Esprits" a melhor existente em português. É realmente espantosa a falta de acuidade literária dos que assim o fazem, pois a "densidade de erros" na referida tradução é bastante alta.

Desde já, peço que os leitores dos textos que virão se atenham às ideias analisadas. Argumentos baseados em uma possível "autoridade" de J. Herculano Pires ou coisa que o valha não serão sequer analisados.

Iniciemos...

(Este texto foi ligeiramente alterado em 16/02/10 na intenção de que iniciássemos, finalmente, a postagem de nossas ponderações a respeito da referida tradução herculana. Porém, decidimos disponibilizá-las em outro blog que criamos, e o primeiro post a respeito do assunto está aqui.)

quinta-feira, 11 de março de 2010

A Editora do "Conhecimento"...

Pessoal, acabei indo parar no site da Editora Conhecimento e, em uma das seções estampadas na própria página principal, "dou de cara" com um erro sobre o qual eu já havia chamado a atenção da editora em um e-mail de... julho de 2005! Trata-se da autoria espiritual do livro "A Sobrevivência do Espírito", devida principalmente a Atanagildo, que, entretanto, não recebe qualquer crédito na capa, que exibe apenas Ramatis como autor espiritual. Apesar do próprio médium, Hercílio Maes, ter afirmado no início da obra que Ramatis fora uma espécie de coordenador do livro, não nos parece lícito simplesmente deixar de mencionar na capa o autor espiritual da parte principal da obra. Problema idêntico acontece com o livro "A Vida Além da Sepultura", também de Atanagildo (autor principal) e Ramatis (coordenador e autor secundário). Na primeira edição de tais obras, no fim da década de 50 do século passsado, pela extinta "Editora Divino Mestre", elas já apresentaram problemas quanto a este ponto, a autoria espiritual sendo indicada na forma "Ramatis / Com a participação do espírito de Atanagildo". Com as edições posteriores pela Livraria Freitas Bastos, a menção a Atanagildo foi até mesmo retirada da capa, e a Ed. do Conhecimento, que atualmente publica as obras mencionadas, insiste em manter este erro. Vale também ressaltar que a Ed. do Conhecimento chega ao cúmulo de listar dentre os livros de Ramatis uma obra inteiramente de Atanagildo, "Semeando e Colhendo", conforme pode ser visto da relação dos livros de Ramatis publicados pela referida editora, que aparece em todas as obras deste Espírito publicadas por ela e também no site da mesma.

Na referida mensagem de julho de 2005 (que não foi respondida!), além dos pontos supracitados, eu também listava vários erros de ortografia e sintaxe da parte introdutória da 13a. ed. do livro "Fisiologia da Alma" (Ed. do Conhecimento, 2002), que fora revisada por dois revisores(!). É lamentável. Na edição dos livros de Ramatis psicografados por Hercílio Maes, a Ed. do Conhecimento propagou praticamente todos os erros que já apareciam nas edições mais antigas, pela Livraria Freitas Bastos... Outro ponto que também mencionei na mensagem foi o fato de que, nos livros do Conde Rochester (autor espiritual) publicados pela editora, o nome da médium ora aparecia como Wera Krijanowskaia, ora como Wera Krijanovskaia, ora como Vera Kryzhanovskaia...

Vá lá que a Ed. do "Conhecimento" continue publicando obras eivadas de erros já cinquentenários de conteúdo, como as ramatisianas "A Vida no Planeta Marte e os Discos Voadores" e "Mensagens do Astral", originariamente publicadas em 1955 e 1956, respectivamente. O editor poderia argumentar, por exemplo, que está servindo a uma causa maior, que é o todo da produção ramatisiana através de H. Maes, etc. Mas, daí à apresentação de obras cheias de erros de português e com capas falseadas, não dá. Esperamos então que a editora ao menos apresente informações verídicas nas capas de seus livros e um português mais palatável no conteúdo deles.

(Este texto sofreu modificações em 26/03/10 e em 10/09/2011)

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

O que é "Espiritismo"?

No início da 1a. edição de Le Livre des Esprits (O Livro dos Espíritos), datada de 1857, na seção "Introduction à l'étude de la doctrine spirite" (Introdução ao estudo da doutrina espírita), Allan Kardec escreve o seguinte (negrito meu):

"(...) le spiritualisme est le opposé du matérialisme; quiconque croit avoir en soi autre chose que la matière est spiritualiste; mais il ne s'ensuit pas qu'il croie à l'existence des esprits ou à leurs communications avec le monde visible. Au lieu des mots spirituel, spiritualisme, nous employons, pour désigner cette dernière croyance, ceux de spirite et de spiritisme, dont la forme rappelle l'origine et le sens radical, et qui par cela même ont l'avantage d'être parfaitement intelligibles. (...)".

Em uma tradução livre:

"(...) o espiritualismo é o oposto do materialismo; quem quer que creia haver em si outra coisa além da matéria é espiritualista; mas daí não resulta que creia na existência de espíritos ou em suas comunicações com o mundo visível. Em lugar das palavras espiritual, espiritualismo, nós empregamos, para designar esta última crença, os vocábulos espírita e espiritismo, cuja forma recorda a origem e o sentido radical, e por isso têm a vantagem de serem perfeitamente inteligíveis. (...)".

Ou seja, espiritismo seria simplesmente a crença na existência de espíritos e em suas comunicações com o mundo visível.

Pois bem. Em 1858 Kardec publica seu livro Instructions Pratiques sur les Manifestations Espirites (Instruções Práticas sobre as Manifestações Espíritas), que serviu de base para Le Livre des Mediums (O Livro dos Médiuns), publicado originalmente em 1861. No Brasil, o Instructions foi traduzido por Cairbar Schutel (Casa Editora O Clarim) e por Julio Abreu Filho (Ed. Pensamento). Em seu "Vocabulário Espírita" consta:

"Espiritismo: doutrina fundada sobre a crença na existência dos Espíritos e em sua comunicação com os homens".

Ou seja, o que antes foi definido apenas como uma crença passou a ser considerado uma doutrina fundada sobre a tal crença...

Em 1859 foi publicado, de Kardec, Quest-ce que le Spiritisme? (O que é o Espiritismo?). Neste livro, que era de se esperar aparecesse uma definição consistente e detalhada de espiritismo, o que vemos passa longe disso. Leiamos seu "Preâmbulo" na versão da Federação Espírita Brasileira - FEB:

"Para responder, desde já e sumariamente, à pergunta formulada
no título deste opúsculo, diremos que: O ESPIRITISMO É, AO MESMO TEMPO, UMA CIÊNCIA DE OBSERVAÇÃO E UMA DOUTRINA FILOSÓFICA. COMO CIÊNCIA PRÁTICA ELE CONSISTE NAS RELAÇÕES QUE SE ESTABELECEM ENTRE NÓS E OS ESPÍRITOS; COMO FILOSOFIA, COMPREENDE TODAS AS CONSEQÜÊNCIAS MORAIS QUE DIMANAM DESSAS MESMAS RELAÇÕES. Podemos defini-lo assim: O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal".

Dois pontos nos saltam aos olhos após a leitura este trecho:

1- Ao resumir sua definição, dizendo que o Espiritismo seria "uma ciência que trata (...)", Kardec contradiz o que havia acabado de dizer, ou seja, que "o Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica". Note-se, inclusive, que em tal resumo não estão contidas as aludidas consequências morais concernentes ao Espiritismo entendido como doutrina filosófica. Temos assim, consecutivamente, duas definições distintas de "Espiritismo", o que é um problema;
2- Não bastasse isso, pode-se facilmente verificar que ambas as definições contrastam tanto com a fornecida por Kardec no início de Le Livre des Esprits, como com aquela do "Vocabulário Espírita" que aparece em Instruções Práticas sobre as Manifestações Espíritas e em O Livro dos Médiuns, reproduzidas linhas acima neste nosso texto.

Resumindo: em Quest-ce que le Spiritisme? Kardec foi infeliz em sua tentativa de definição de "Espiritismo". Curiosamente, tem gente que ainda briga (tentando se justificar justamente com esta obra de Kardec!) dizendo que "isto é Espiritismo", "aquilo não é Espiritismo", etc. Convenhamos...

Em 1860 foi a vez do surgimento da 2a. edição de Le Livre des Esprits, a "edição definitiva", utilizada como base para as principais traduções do livro no Brasil. Na versão de Guillon Ribeiro (FEB), consta o seguinte na parte I da "Introdução ao estudo da doutrina espírita" (negritos meus):

"(...) o espiritualismo é o oposto do materialismo. Quem quer que acredite haver em si alguma coisa mais do que matéria, é espiritualista. Não se segue daí, porém, que creia na existência dos Espíritos ou em suas comunicações com o mundo visível. Em vez das palavras espiritual, espiritualismo, empregamos, para indicar a crença a que vimos de referir-nos, os termos espírita e espiritismo, cuja forma lembra a origem e o sentido radical e que, por isso mesmo, apresentam a vantagem de ser perfeitamente inteligíveis, deixando ao vocábulo espiritualismo a acepção que lhe é própria. (...)".

Ou seja, a despeito da malfadada tentativa de definição de "espiritismo" em O que é o Espiritismo?, Kardec manteve o conceito que externara na 1a. edição de Le Livre des Esprits a respeito da palavra.

Aqui, neste blog, tomaremos por base esta primeira definição de "espiritismo" dada por Kardec, que se apresenta livre de quaisquer inconsistências, além de ser extremamente simples e abrangente:

ESPIRITISMO - CRENÇA NA EXISTÊNCIA DE ESPÍRITOS E DE COMUNICAÇÕES DESTES COM O MUNDO VISÍVEL.

(Este texto foi modificado em 31/03/2010 [geral], 18/05/2010 [último parágrafo], 21/03/2011 [retirada de trecho] e 05/05/2011 [geral].)

(O texto acima, revisado, encontra-se agora em uma página estática -- aqui.)